Fundos da torre 17: Tasquinha da Sé

por Amadeu Araújo | 2018.11.02 - 11:23

 

 

É um fado, um fado Hilário, mas Augusto e sem lembranças da roda que ditou o músico e alvoraçou a antiga rua Nova que lhe ficou com o nome. Na rua Augusto Hilário, com a Catedral no tardoz, abriga-se esta Tasquinha da Sé, mãos firmes no leme petisqueiro e garrafeira aviada a grandes fados, sem futricas mas com tricanas.

A casa é pequena, mas abriga outra sala, na cave e convém, nos dias grandes, fazer reserva. Chegando ao centro histórico de Viseu procura-se a estátua de Dom Duarte e à direita do rei encontramos esta taberna, moderna e feliz, a descer que todos os santos ajudam. Ao almoço há refeições mais rápidas para a aflição do tempo, mas a carta assenta nos petiscos, em porções generosas e bem empratadas. Coisas simples e complexas, de sabores e aromas, que nos fazem emproar o costado e alapar bem em cadeira digna de bispo. Moelas, costeletinhas em vinha d’alhos, alheira e ovos e umas suculentas bochechas de porto. Também há pataniscas, de polvo e bacalhau, choco frito e uns inolvidáveis ovos mexidos com espargos. Não faltam costelas de vitela, nem o arroz de alhos e vinhas, tão pouco ovos escalfados com ervilhas. Sim o cardápio lembra outras cozinhas, mas o preceito é contemporâneo e hodierno mesmo no arroz de entrecosto com grelos, nos dias dele e até lombos de porco. Sim a dispensa é pródiga, as mãos generosas, o atendimento catita. No acompanhamento migas e batatas, delicadamente fritas e nos bebes uma garrafeira avondada, com várias regiões, mas um grande introito dedicado ao Dão para vinho que corre a copo e a garrafa. No final há cheesecake de mirtilo e até uma mousse de oreo, com a bolacha pensada para os petizes que também desfrutam de menu dedicado.

O ideal para a comezaina é juntar amigos e elencar vários petiscos, os acepipes merecem bem a botelha do vinho. As doses rolam entre os 5 e os 8 euros, a garrafa sai a preços cordatos e a mastigação, para 3 pessoas e com vinho incluído, sem devaneios ronda os 40 euros. Pode ser abaixo, ou acima, dependendo da sede e do apetite. Do que gosto é das mesas, do trato e da cozinha que não esquece os enchidos, sejam eles a alheira ou a chouriça que também dança com feijocas e, em havendo, favas. Uma pequena Tasquinha, à Beira da Sé, que honra e orgulha a região e a gastronomia. E as cepas que é variada a oferta vínica e ataviado o atendimento.

Moderno na descontração, abalizado na sisudez com que merece a cozinha Beirã é local feliz que, nos dias em que o aguaceiro não tinge a careca, tem uns bancos no exterior para olharmos a rua em que cresceu o fadista, talvez o primeiro deste imenso Portugal e que bem disse: “Ninguém mais será formado; Quando a velha academia; Deixar de cantar o fado”. Cantemos, pois, e, de caminho, escorropiche-se o pipo que em bom albergue bem se come e melhor se canta.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista