Fundos da torre 13: Retiro da Manhosa

por Amadeu Araújo | 2018.10.04 - 12:12

 

Já foi um dos arrabaldes da cidade de Viseu, ainda as vinhas não tinham sido plantadas nos separadores da moderna avenida que nos leva a Cabanões. Manhas só no crisma, que num extremo é Retiro, no outro é Churrasqueira. Seja os dois, incluindo o batismo do povo que é o que mais nos vale. Talvez tenha sido um ermo, mas hoje a Manhosa não tem tricas nem ardil, mostra antes a astucia de quem prepara o chibo. Sim o balido do cabrito é o que aqui nos traz a este Retiro da Manhosa, onde cabrito de mês leitão de três…

É preciso ver a touriga e o encruzado plantados defronte da Escola Superior Agrária, descer a rotunda e voltar acima ao encontro deste estabelecimento que mantém portas abertas há 4 décadas e onde o cabrito salta da grelha. Bom carvão ao lume que antes o chibo foi cortado e marinado, pedaço a pedaço. E é assim que ele vai, e vem, à grelha. Feito na hora, logo após o pedido do freguês e chega sem saudades do lume. O olho ao naco faz desta astuciosa, e palativa grelha, uma demanda. Valha-nos a curadoria do Jorge e as batatas, honestas e enxutas na fritura, ou os espigos que acolitam o dito cujo, que chega pedaçado, crocante, saboroso e único que nos detalhes é que está a querença.

Sente-se, peça pataniscas e escolha um vinho, um destes aveludados tintos do Dão ou, para quem faz da mastigação sacerdócio, um robusto e untuoso Encruzado, que a dialética vínica aceita tudo menos lugares comuns. Este filho de uma cabra, que esperou 150 dias no alforge antes de amamentar e temperar é, de bom grado, uma carne suculenta, saborosa e única.

Para quem deseja outras tormentas a grelha avia, avia assando, bacalhaus, febras e bifes. As mesas são espaçosas, o trato especial e a atenção da cozinha é uma curadoria sobre tão nobre gastronomia. Há estacionamento, sobremesas e, quase sempre, umas lascas de queijo, ou colheres, para embalar o que sobra do vinho ou, ignaro, aborletando outra garrafa que o táxi resgata sem mudar bandeirada. Enquanto me afeiçoava ao cabeção, limpando as beiças e agradecendo a prebenda, não aquilatei a proveniência. Talvez venha destas serranias próximas, talvez venha do Caramulo, mas uma certeza avalizo. Quem amamenta tem o bojo forrado a urze e carqueja que a carne e tenra, um pouco de gordura e muita suculência.

Ora acredito que não seja necessário esperar pela Procissão dos Passos para nos alambazarmos que a petisqueira, se refeiçoeira, abonda em duas dezenas de oiros, mas também se serve à merenda.

Manhosa a cozinha, feliz a mesa, bendita a grelha. Retiro, que sem desossar, fez do filho da cabra um farol na arte de bem cozinhar.

 

Amadeu Araújo, Jornalista