Fundos da torre 12: O Brasileiro

por Amadeu Araújo | 2018.09.27 - 11:09

 

 

Do oito ao oitenta parece viagem de sobressalto, mas a mesa tem o merecimento que deve, sem que abonde o preçário ao meio do cardápio. Hoje cavo fundo na torre e alapo numa das tabernas que mais prezo em Viseu. O Brasileiro nasceu do regresso de um emigrante, expatriado como agora se diz, e assim ficou crismado. Sou passageiro assíduo destas cadeiras merendeiras e, ainda antes de saudar a freguesia e os proprietários, boto o olho à vitrina. Lá é que está a hossana da odisseia, vou ao cheiro como bem se diz.

Ora comendo e entrando há por estes dias uma omeleta de chouriço, de bons ovos e com o travo do enchido a botar todo o paladar. Também se apregoa polvo frito, e é mesmo polvo, todo ele aproveitadinho, dos nacos mais grossos aos tentáculos mais finos. Filetes de pescada, como o polvo passado em ovo naquilo que os finos apelidam de tempura e, petisco para duas canecas de vinho, um bacalhau frito, em posta alta, de finas lascas, encostando o garfo, despostando e mastigando. Outro petisco raro de encontrar é fígado, aqui servido com cebola e pimentos, de boa carne e melhor tempero, creio que com uma golpada de vinagre. Também já por lá podei umas codornizes, amolhadas e viçosas e a meio da manhã, quando vou ao desjejum, salta-me ao pão uma febra de boa marinada. Depois há enguias, fritas ou em escabeche, um petisco de tempero simples, sal e limão e óleo bem quente, para as primeiras, vinagre e alho de bom tom para as segundas. É como vos digo é “vir ao cheiro”, espreitando préstimos e pedindo.

Nesta taberna que é conciliábulo as mesas são largas, as conversas francas e há, para os homéricos, queijo de esfolar as narinas. Do amanteigado ao duro, provindo da Estrela que é Serra pródiga e de origem protegida, acompanha com casqueiro trigueiro e uma senhora broa de pedir meças ao melhor dos trambelhos. A pinga, que também a há rotulada e denominada, vem do Tralcume que é segredo que Vilar Seco mostra e que se bebe de escorropicho. No final da merenda, do petisco ou do desjejum, saltam sempre uns biscoitos, ou umas línguas de gato em havendo faro, e corre uma aguardente, provinda da Bairrada que os senhores inspetores acabaram com o cheirinho.

Se não vier pelos intermédios, vespertinos ou matutinos, há pratos de lista e diárias, menus que merecem o empenho e o cuidado que a Ana e o Arnaldo botam a quem chega. Aqui há uma cozinha de amor e um pátio para dias de refrega numa comida legitima e com briol genuíno. Petiscaria e cavaqueira numa taberna acolitada nas Pedras Alçadas, levantadas ou erguidas que assinalam significados e territórios. Propaganda da boa que há merecimento. E quando assim é, deitem lá mais uma aguardente e trinquem o biscoito que a conta é meiga. Três merendeiros, sem passar fome nem sede e reclamando mão para coçar a barriguinha, ou dar um ‘murro no peito’ que tem pleito, importam em 20 euros, um pouco menos para os frugais, um nada mais aos lambareiros. Mas que as pedras alçam, ai isso alçam. Alçam e gemem que ainda há tabernáculos felizes e hoteleiros que merecem todo e cada um dos fregueses que ali procuram assentamento. Vão por mim, este Brasileiro é prazenteiro, pródigo no petisco, feliz na contabilidade e autêntico. Coisa rara nos dias que correm.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista