Fundos da torre 11: Mesa de Lemos

por Amadeu Araújo | 2018.09.21 - 11:40

 

 

Podemos pensar que é caro, mas acaba por ser justo no que importa. E a deslocação vale sempre a viagem, pelas vinhas rodeadas de rosas, pelo rio que se pressente, e por uma ruralidade bucólica que se contempla à mesa. Sim esta Mesa de Lemos é sofisticada, mas o leme tem mão feliz, pródiga e atenta. Atenta na feitura das ementas, no que o mercado oferece e do que a estação permite.

Sou suspeito, que amigo do chef que se assume por cozinheiro. Nesta Mesa temos cozinha de autor, baseada em produtos tradicionais, de aprimorada qualidade, bem confecionados e melhor explicados. Peixe ou carne, mariscos ou moluscos, vem tudo sob a forma de um menu, em serviço sincopado, percebido, anota e irrepreensível.

Anote e prepare-se para o arranque que depende sempre do que a dispensa oferece, sejam línguas de bacalhau ou um solitário, e feliz, carabineiro. Todas as noites são diferentes, mas a dispensa mostra esse nosso Portugal, uma taifa que percorre continente e ilhas, sejam as Lapas dos Açores ou as Feijocas da Beira. Do mar há, quando a pesca é generosa, robalos e da carne a maturação, repetindo a carne que fica em descanso antes de ser preparada. Uma cozinha de país inteiro, que não esquece as sobremesas, sejam uma simples pêra ou um tradicional chocolate ou um suspiro de lima. E, claro que Deus é nosso amigo, há sempre queijos, da Serra, dos Açores, de cabra ou de ovelha. E maças, mais leguminosas, tudo o que a região oferece, produtos escolhidos, com critério, representando uma Mesa e uma cozinha de autor, dominada por boas técnicas, viajada e conhecedora. Sim o Diogo Rocha tem mundo, muito, mas nunca esqueceu nem as origens nem este Portugal que tão feliz nos faz. O talento está com ele e a imaginação também.

Há 25 lugares, e sempre terá a conversa do Chef mas aconselho-lhe reserva. Da ementa o serviço é feito em menus, que rondam os 105 euros a que acresce a taxa dos vinhos, por norma 40 euros que nem todos os semestres tenho a felicidade de me sentar na Mesa do Lemos, todos eles produzidos nas vinhas que se vêm logo abaixo da escarpa do granito.

Desse menu a organização é feita para agradar ao palato e fazer cócegas na barriguinha. Sim começamos em solilóquio e saímos de orquestra. Da costa, mariscos ou peixes, do mercado os acompanhamentos e do pomar as sobremesas. Na última noite que ali me afreguesei tivemos mariscos da costa, um valente carabineiro dançando no granito; polvo de Peniche. Num outro dia havia salmonete, Cabrito do Caramulo e, nessa outra ida, a Vitela de Lafões. A estação do ano, os ciclos das colheitas, ditam os menus que aqui não se fazem contemplações.

O serviço é excelente, as mesas espaçosas e confortáveis e a vista de deslumbre. Que seja por um vislumbre, afoite-se e venha ver, e saborear, uma das mais surpreendentes cozinhas portuguesas, sofisticada de tanta simplicidade. Receitas do antes, com técnicas do depois numa gastronomia que não se deixa regionalizar, mas tem origem. Origem e saber. Com sabor.

Bravo Diogo que privilégio ter assento nesta tua Mesa.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista