Fidelizar público

por Vitor Santos | 2017.02.09 - 12:19

A comunicação social noticia que o Académico de Viseu vai investir 5 milhões de euros na modernização do clube e infraestruturas. Excelente notícia. A Região tem mais a ganhar com uma Instituição Desportiva forte e aglomeradora do que com rivalidades de quintais – nem quintas são. Pode ser é… tarde!

Mas qual deve ser o objetivo? O “único” objetivo de um clube profissional deve ser o de fidelizar adeptos nos seus eventos. E esta é válida para qualquer atividade. Um produto sem «mercado» desaparece.

Como chegar lá?

1 Organização interna é a base de qualquer instituição. É preciso liderança e em que cada colaborador saiba exatamente qual sua função. Quanto mais autonomia, mais responsabilidade.

2 Recursos humanos são a alma. A escolha dos elementos tem de ser de acordo com o seu perfil e o caminho que se quer percorrer.

3 Estruturas físicas são o «lar». Excelentes condições de trabalho. A sede administrativa, social, comercial e tem de ser visível diariamente por um maior número de pessoas. Não se pode estar escondido.

A gestão no desporto português não é racional e qualquer investimento tem ser pensado e repensado. A estratégia tem de ser bem definida e com coragem para a executar, sem tremer com resultados desportivos. Que Viseu é uma zona geográfica que pode aglomerar um grande número de adeptos em seus eventos todos o sabemos que sim.

Mas, o “mercado” em Portugal é pequeno e a qualidade do espetáculo é, na maioria das vezes, irrelevante. A forma como se ganha não interessa. É a paixão pelo clube que dita as regras. A competição não é primordial. A verdade desportiva é duvidosa, no mínimo. Difícil vender um produto assim. Os valores do desporto parece que não têm espaço. A pré-falência é visível e é o que se deixa para as gerações futuras…falências. Esta geração herdou algumas e vai acrescentar outras.

Os treinadores queixam-se do antijogo quando é o adversário a fazer e esquecem-se que eles o fazem, incentivam-no mesmo. O adepto se está a ganhar aplaude estas situações. O tempo de jogo pode ser mínimo, o preço do bilhete oneroso, o espetáculo pobre mas se a «minha» equipa ganha está tudo bem. Falta cultura desportiva. Gostar de desporto. Dar valor ao dinheiro. Ser exigente enquanto espetador pagante de um espetáculo. Os clubes chamados “3 grandes” conseguem mobilizar muitos adeptos mas é pelo fanatismo clubístico, não deixando de ser instituições tecnicamente falidas.

É preferível sair de um jogo com a certeza de: “Gostei disto. É emocionante. Pena não termos ganho!”, do que: “Que seca. Não me apanham cá mais. Só valeu pela vitória…” É esta segunda reação que não interessa à competição: o espetáculo fraco. Apreciamos ver um filme excelente do qual não gostamos do final e não um de fraca qualidade com final feliz.

Existem espetáculos desportivos profissionais em Portugal em que o número de espetadores cabe numa sala de cinema. Jogar para cadeiras ou câmaras de TV é frustrante para quem tanto trabalha. A calendarização dos jogos é ridícula. Os programas de televisão na área do entretenimento que usam o desporto como tema são aberrações mas … têm audiência!!!! Contradições?!

O espetáculo desportivo em Portugal tem vindo a perder adeptos e são várias as modalidades que depois do apogeu, no final do século passado, não conseguem «vender» o produto. O esvaziamento do interior traduz-se na falta de atletas, e adeptos, de competições nos escalões jovens, e as modalidades não conseguem organizar campeonatos por falta de equipas. A concentração das competições seniores nos dois grandes centros urbanos pode ser a curto prazo excelente para os clubes de Lisboa e Porto mas será fatal a médio prazo para o país: aumento de falências das competições.

Em Portugal, depois do apito dourado – escutas disponíveis na internet, pensou-se que uma página se virava no futebol português. Durou pouco. Está enraizado. A FPF vive no mundo à parte, no luxo – “preocupada” com as seleções e o que gira em torno destas e a LPFP é mais uma Associação bem típica portuguesa: cada um olha para o seu umbigo e puxa para o seu lado. A arbitragem não é indiferente a toda a (des)organização desportiva.

Clubes, treinadores, atletas, jornalistas, árbitros e adeptos constroem o desporto que queremos ter. O desporto deve viver-se com ingénua emoção. O resultado é uma consequência e quem joga melhor vai ganhar muito mais vezes. Mas não ganha sempre.

 

 

 

 

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

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