FESTIVAL MESCLA: FLORES SEM JARDINS

por Carlos Vieira | 2019.07.16 - 08:48

Há males que vêm por bem”, diz o ditado,  e há bens que vêm por mal, digo eu. Parece ter sido o caso do Festival Mescla que decorreu em Viseu de 1 a 7 de Julho.  Quando em Março, em comunicado conjunto da directora dos Jardins Efémeros, Sandra Oliveira,  e do vereador da Cultura, Jorge Sobrado, os viseenses ficaram a saber que aquele festival, que tinha colocado Viseu nas rotas dos grandes acontecimentos culturais nacionais, atraindo milhares de pessoas ao centro histórico, nos últimos oito anos, ficaria suspenso em 2019, parecia uma falha dificilmente superável. Sandra Oliveira justificou-se com a necessidade de “uma pausa para reflexão”, abrindo a porta para um regresso em 2020 (já confirmado logo que acabou o Mescla) .

Jorge Sobrado, na ocasião, em declarações ao Observador,  acusou a Direcção-Geral das Artes (e o Ministério da Cultura que a tutela) como um dos responsáveis pela falta de financiamento, por, em 2018, ter aberto muito tarde o concurso de apoios pontuais (que em 2017 tinham ajudado a financiar os Jardins com mais 30 mil euros),   e em 2019 nem sequer tinha ainda sido aberto. 

Mas também houve quem lamentasse que o Município não não tivesse feito um esforço para colmatar esse défice, dado a relevância cultural e até turística dos Jardins.  Já em 2018 Sandra Oliveira se tinha queixado da redução de apoios, o que a levou a encolher a duração dos Jardins de 10 para 5 dias (começaram com dois dias e foram aumentando à medida que o financiamento também subia). A verdade é que a candidatura (bianual) foi para o envelope financeiro mais volumoso, de 100 mil euros, a que se acrescentam 25%, no máximo,  de apoios não financeiros (utilização de meios técnicos e logísticos, bens e serviços, meios publicitários do município, como “outdoors” e “mupis”, isenção ou redução de taxas, etc.).

O mesmo envelope a que concorreu o Festival Internacional de Música da Primavera, organizado pelo Conservatório de Música de Viseu, já incontornável no mapa dos grandes festivais de música erudita do país, com 25 concertos (alguns gratuitos), com muitos músicos de gabarito internacional, três ou quatro orquestras e ainda concursos internacionais de piano e guitarra (em anos alternados).   

Apesar da desistência ter sido anunciada a escassos dias da assinatura do protocolo entre o Município e os projectos culturais aprovados, deixando apenas três meses para organizar a programação alternativa que Jorge Sobrado anunciou, tendo o cuidado de dizer que não pretendia substituir os Jardins Efémeros,  o Mescla revelar-se-ia uma boa aposta. Almeida Henriques poderia ter dispensado a adjectivação de “evento cultural de animação urbana,  inclusivo e não elitista”, o que alguns entenderam como um remoque aos Jardins Efémeros e às artes experimentais ali promovidas. Estranho, vindo de quem decide cobrar entrada às actividades realizadas, inclusivamente, nos museus municipais (1 euro por criança e 2,5 por adulto) quando nos “elitistas” Jardins nunca se pagou nenhuma actividade!

Jorge Sobrado não caiu na tentação de recriar a vegetação dos Jardins, a imagem de  marca e a embalagem a que Sandra Oliveira recorreu para atrair gente(s) à animação do centro histórico, mas acabei de ler a notícia de que a Câmara irá inaugurar, no próximo feriado municipal,  “jardins permanentes” no Largo da Misericórdia, Largo Pintor Gata e envolvente da Rua do Arvoredo, a que se seguirão outras praças, como a D. Duarte. Até parece boa ideia, à partida (se não se tratar de meras floreiras), mas chamar-lhes “jardins permanentes” não pode deixar de ser entendido como mais um remoque ressabiado aos Jardins Efémeros.

Sandra Oliveira pode ser ambiciosa,  pode colocar a fasquia muito alto e dar a ideia de ser pretenciosa,  mas não se pode negar que os Jardins Efémeros transformaram a relação das pessoas com o centro histórico, obrigando-nos a ver para além das fachadas, criando galerias de arte em esconços espaços devolutos, desvendando surpreendentes interiores escondidos, com a participação de artistas plásticos locais, mas também artistas de renome nacional e até internacional, como Luis Calheiros,  Miguel Januário (+-Mais Menos) e Alexandre Farto (Vhils). A grande virtude da Sandra Oliveira foi promover não só a descentralização da cultura contemporânea nacional, mas também o  pensamento sobre a urbanidade e a intervenção/ocupação no/do espaço público, rasgando teias provincianas e abrindo a cidade ao cosmopolitismo. Objectivo não exclusivo dela, que, aliás, contou com a colaboração, muitas vezes gratuita, ou quase, de outros agentes culturais, mas que, com os Jardins, atingiram uma dimensão inédita. O acesso gratuito à cultura, perseguindo a “educação pela arte”  (apesar de alguns detractores do que apelidam de “borlismo”, que falam de barriga cheia), também me parece um nobre objectivo.

E não seria difícil abrir mais o Mescla às artes plásticas se tivesse havido o golpe de asa para convidar, por exemplo, os artistas da CAOS, Casa d’Artes e Ofícios, mesmo nas traseiras da Sé, com tantas provas dadas, apesar de não terem sido objecto de incubação.

O Mescla foi um sucesso, não obstante umas lamentáveis falhas e trocas de horários, como a actuação do Quarteto de Saxofone, programado para as 21 horas do dia 5, ter sido antecipado para as  20 horas; ou não constar no cartaz junto ao Palco da Fonte das 3 Bicas a actuação do Sopa de Pedra, ainda por cima sendo a primeira vez que este grupo vocal feminino actuava em Viseu, maravilhando o público com as suas incríveis harmonizações polifónicas “a capella”.  Para mim, foi o melhor do festival, a par do concerto de abertura do Gira Big Band, constituída por jovens músicos formados em bandas filarmónicas da região, mas também por alunos e professores do Conservatório e pelos músicos do Colectivo Gira Sol Azul, com direcção de  João Martins  e a participação especial da cantora Elisa Rodrigues.

O facto de o Mescla recorrer à “prata da casa” não é um defeito, pelo contrário, desde que a prata tenha o contraste que lhe confere a qualidade superior de projectos como o Teatro Mais Pequeno do Mundo,  ou a criação teatral de Sónia Barbosa, Dmitri ou o Pecado, a partir de Os Irmãos Karamázov de Dostoiévski, que já tinha estreado em Junho, no Teatro Viriato.  

O festival acabou em festa,  com o projecto Sr. Jorge: o fadista viseense,  Jorge Novo (sacristão da Igreja da Misericórdia), acompanhado por três bons músicos e compositores, Gonçalo Alegre (Galo Cant’ às Duas), Rui Souza (Dada Garbeck) e João Pedro Silva (The Lemon Lovers), que já tinham estreado no mês de Maio, no Karma, festival da Associação Cultural Carmo 81.

E em 2020, como vai ser?… Teremos o Mescla a competir com os Jardins Efémeros no mesmo concurso e para a mesma data? Ou será por ajuste directo da Viseu Marca?

Se calhar, o que faz falta é um pouco de “swing”. Apareçam, de 24 a 28 de Julho, no 7º Festival de Jazz de Viseu., promovido pela Gira Sol Azul.  Jazz, a música do diálogo e da Paz.

Carlos Vieira e Castro