Felizmente há desassossego!

por Luís Ferreira | 2014.04.26 - 20:51

Comemoram-se hoje quarenta anos do 25 de Abril de 1974 – o dia da Revolução, da conquista da Liberdade.

Não sei bem que idade eu teria nessa altura, mas o meu pai tinha acabado de fazer onze anos e, por isso, ainda me considero um parente próximo da Liberdade! Quatro décadas volvidas, a nossa relação de parentesco fortaleceu-se e a cada dia que passa lhe atribuo maior importância. É também cada vez maior o respeito e a consideração que me merecem aqueles que, com espírito de liderança, infinita coragem e guiados por um sonho desmedido de justiça e de igualdade, se arriscaram e derrubaram as grades do cativeiro em que Portugal se transformara, devolvendo à pátria o orgulho da sua nacionalidade.

Como disse Aquilino Ribeiro, nosso Mestre, meu conterrâneo, um dos filhos mais ilustres da nossa Beira e das suas Terras do Demo, e que, na minha opinião, foi um antecipado general de abril: “O que o homem mais aprecia acima de grandezas, glória, amor, acima do seu próprio pão para a boca, é a liberdade…” e é também ele que nos aconselha a cultivar “a inquietação como fonte de renovamento”.

Foi, na verdade, a inquietação e o sonho de uma geração descontente que germinou o movimento organizado que levaria a uma revolução com repercussão nacional. Uma revolução única a nível mundial, onde as balas eram cravos vermelhos e a bandeira era a esperança. Toda esta afincada e organizada luta, para se atingir o grande objetivo da conquista da Liberdade, da extinção da censura e da opressão.

Cabe-nos, a nós, portugueses, conquistadores insatisfeitos, que demos novos mundos ao mundo, que nunca desistimos, desafiando a própria vida “por mares nunca dantes navegados”, buscar na História mais recente ou na mais remota os grandes exemplos que fizeram de nós um povo grandioso.

É certo que, atualmente, a nação se encontra insatisfeita e desmotivada e, como diria certa Pessoa, “Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”. É verdade que o futuro da minha geração também se afigura nublado, baço, sem fulgor. Não há dúvidas de que, por vezes, somos tomados pelo desalento e pela desconfiança. Porém, não será um mero nevoeiro que nos irá derrotar! Porque somos trabalhadores, porque somos lutadores e, acima de tudo, porque, felizmente, somos descontentes! Se é o descontentamento que conduz à ação, que proporciona novas ideias e novos ideais, que gera protótipos de um país melhor, então que se viva essa inquietação, que continue esse descontentamento e que nunca nos sintamos cansados de lutar e de sonhar. Citando Zeca Afonso, “O que é preciso é criar o desassossego”, só assim se conseguirão novos tempos de procura, de sucesso, de realização!

Porque ser português é ser tudo isso! É ser lutador e conquistador, é ser idealizador, é ser insatisfeito e desassossegado. Não esquecendo a glória dos nossos antepassados e tomando as suas ações como exemplo, há que reacender a chama, há que remar contra a maré ou aproveitar os ventos favoráveis. E esta “É a hora!”.

Bons exemplos de perseverança, de ideais e de conquista são as nossas escolas viseenses, quais represento humildemente. Há séculos a formar pessoas de elite, a ensinar a ser e a estar, a dar exemplos de sucesso e a proporcionar lições de vida, com projetos educativos exemplares de cultura e de inclusão. E como se não bastasse este exemplo, orgulhemo-nos também da nossa cidade de Viseu que continua a atrair investimentos, com uma agenda cultural polivalente, e é considerada por muitos a melhor cidade para se viver. Com certeza que estes exemplos de êxito demonstram bem o espírito viseense. Não nos contentamos com a metade, lutaremos sempre pelo Absoluto!

Quero também deixar aqui a expressão do meu apreço pelos capitães de abril e por todos aqueles que lutaram pela liberdade. A eles, toda a minha geração deve, com certeza, uma especial e sentida congratulação, e, a promessa de que do seu empenho e sacrifício retiraremos bons exemplos, pois eles foram verdadeiramente a mudança, eles foram a expugnação, eles foram os plantadores de cravos. Se hoje me encontro a discursar, a ler as minhas próprias palavras e a demonstrar a minha visão da liberdade e da nação, a eles manifesto a minha gratidão por não ter sido censurado! Se hoje aqui estou em representação da família de abril, é graças a eles, homens de coragem e de ideais. Graças ao seu descontentamento, graças à sua garra!

O tributo que podemos prestar-lhes por tão grande dádiva é zelar pela Liberdade, investindo na tolerância, na solidariedade, na generosidade, na honestidade e no respeito pelos que nos rodeiam.

Fica o juramento! A minha geração, apesar de assombrada por esta malfadada crise, está consciente das dificuldades. E, com trabalho, com rigor, com entusiasmo, com dedicação, havemos de saber manter e cultivar o legado da liberdade, recomeçando sempre, não desanimando perante os obstáculos.

E, para terminar, permitam-me partilhar convosco este poema de Miguel Torga:

 

 Recomeça…

 Se puderes

 Sem angústia

 E sem pressa.

 E os passos que deres,

 Nesse caminho duro

 Do futuro

 Dá-os em liberdade.

 Enquanto não alcances

 Não descanses.

 De nenhum fruto queiras só metade.

 

 E, nunca saciado,

 Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

 Sempre a sonhar e vendo

 O logro da aventura.

 És homem, não te esqueças!

 Só é tua a loucura

 Onde, com lucidez, te reconheças…

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

Pub