FDP de gama alta

por João Fraga | 2014.02.09 - 15:58

«O sorteio ‘Factura da Sorte’ tem por finalidade valorizar e premiar a cidadania fiscal (…)”. Assim reza o comunicado do Conselho de Ministros de 6/2/2014.

Quase já nos habituámos (o que é perigoso) a que o Governo quase tudo fundamente e caracterize com argumentos e rótulos financistas. Agora, a par da saúde (“financeira”), da educação (“financeira”) e da cultura (“financeira”), é a “cidadania”. Passamos a ter a “cidadania fiscal”.

Sedimentámos a convicção de que, consistindo (basicamente) a cidadania na participação na / da vida de uma comunidade da qual efectivamente se faz parte, pagar os impostos é um acto de(a) cidadania. Isto na medida em que pagar os impostos é uma contribuição para o “bem comum”, presumindo-se ser deste essência aquilo que mais determinante é na condição humana e social de cada um e de todos, designadamente, a saúde, a educação, a segurança social, a justiça, a cultura, a segurança pública, etc…

Por isso, em geral, não discutimos a legitimidade dos impostos, porque, individual e socialmente, sem impostos não poderíamos ter, através do Estado, a contrapartida pública do “bem comum”.

Mas o Governo, assumindo estar a fazer uma “revolução silenciosa” para “transformar a sociedade portuguesa” pela via da “mudança” de “paradigmas” e de “mentalidades”, objectivamente, quer agora que os portugueses passem a pensar que pagam os impostos (só) porque na “Factura da Sorte” lhes pode sair, “chave na mão”, um “carro de gama alta”.

Depois da sangria fiscal que é o “enorme aumento de impostos” (sangria muito sugada ao “bem comum” pelo vampirismo dos agiotas da dívida, da especulação e corrupção financeira, das PPP, dos swaps, das subvenções fiscais, das mordomias e “assessorias” governamentais, etc.), o Governo “evolui” para a lotaria fiscal, dita “cidadania fiscal”.

De cidadãos, passamos então, como apostadores-fiscais, a “cidadãos-fiscais”. “Aos Ferraris, cidadãos!”

Mas há um risco que o Governo deve prever. É o de que a “mudança” de “mentalidade” e de “paradigma” induzida pela “Factura da Sorte”, transforme os portugueses, irrevogavelmente, de cidadãos (“fiscais” e não só) em FDP (“fanáticos dos popós”) de “gama alta”.

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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