Fastio

por Renata Aguiar | 2016.03.06 - 18:25

 

 

O repto do tio P. sempre me desafia. Depois de os anos me terem cristalizado no que viria a ser hoje, reconheço em mim muito dele – embora inequivocamente mais branda de feitio e menos abonada de talento…

Quando ele me espicaça para escrevinhar, fico sempre com vontade de aceder.

Tenho dito, várias vezes, que a medicina matou a minha criatividade. A ciência tem esta contrariedade de facilmente nos tornar enfadonhos, macilentos, embaciados. Exige que lhe dediquemos demasiado tempo – sem perspectivas de que isso mude, porquanto é uma promessa que jamais poderemos quebrar. A exactidão tolda-nos a fantasia, transforma o nosso pensamento numa linha irrepreensível, que não admite pensamentos tangenciais, paralelos ou divergentes. De repente, os nossos cenários e as personagens das nossas vidas definem-se pela comodidade dos convívios diários; e todas as histórias, todos os gracejos, todas as rotinas – talhados pelo mesmo mote.

Quando era miúda, punha mil cores nas histórias que escrevia. Já mais crescida, sabia ver na poesia todos os significados. Inventava-me. Os anos foram passando, e os livros passaram a demorar-se cada vez mais na cabeceira até se revezarem; e o pathos da minha escrita passou a ser o facto de discorrer quase invariavelmente sobre… patologia. A par das letras cada vez mais breves, tornaram-se mais raras as idas ao cinema e os discos ouvidos de uma ponta à outra; se não foram menos os caminhos, foi certamente menor a capacidade de me deslumbrar e ver neles os ângulos escondidos; o tempo começou a parecer demasiado curto para as horas de convívio; e, sem dúvida, fui-me dividindo entre cada vez menos coisas.

Angustia-me a percepção deste fastio. Paradoxalmente, vivemos numa era em que o mundo está à nossa porta e tudo parece facilmente acessível – e, contudo, deixámos de ter tempo para usufruir dessa imensidão de possibilidades.

Devagarinho, tenho feito por cumprir o meu propósito de voltar a ser mais do que aquilo em que os dias me tornaram. Voltei a ser leitora ávida, espectadora ainda tímida, cozinheira experimental. Passei a olhar pelo meu corpo, para que não seja ele a tolher-me as investidas que ainda quero cumprir. Dediquei-me mais aos que fazem o meu coração bater. Fiz planos, tantos planos! – a fotografia, os trabalhos manuais, os passeios. E como tudo isto, quando o P. me incita, acorda em mim aqueloutro gosto que ficou adormecido.

Citando o Prof. Abel Salazar, “o médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe.” Fora ele engenheiro mecânico, professor de história ou jardineiro – acredito que a afirmação seria igualmente válida. Temos o dever de nos enfeitarmos por dentro e de fazer valer os dias que nos são dados.

Às vezes, basta um passeio na Rua Direita.