ÊXODO RURAL E DEPENDÊNCIA

por José Carreira | 2016.06.14 - 08:46

 

 

Quando, há cerca de três décadas, vim viver para a aldeia de Aviúges, freguesia de Cepões, concelho e distrito de Viseu, havia centenas de habitantes. Podíamos fazer compras em duas mercearias, tomar o café e jogar às cartas ou aos matraquilhos em três estabelecimentos distintos do “Quim”; da “Dorindinha” e do “Tónio”… Mais tarde, a esta oferta, ainda se somou a Associação…

Com facilidade organizávamos duas equipas de futebol de onze e jogávamos, por vezes, os célebres solteiros contra casados. Organizavam-se torneios em que as diversas aldeias punham o seu potencial futebolístico em campo. Lembro-me dos jogos contra Cavernães, Cepões, Nelas, Passos, Calde…

Em 2016, em vésperas de celebrar 39 anos, não há um único café / mercearia. Sou das pessoas mais novas a viver na aldeia, agora, em resultado da reorganização administrativa, pertencente União das freguesias de Barreiros e Cepões.

Escusado será dizer que futebol só na televisão, na sede de concelho ou, como diria o Jesus, na PlayStation…

Nas últimas décadas, em Portugal produziu-se um fenómeno demográfico de grande impacto: o êxodo rural. Esta tendência levou grande parte da população jovem e de meia-idade a abandonar o mundo rural e a imigrar para diversas latitudes ou a instalar-se nas cidades.

A maior parte da população, que resistiu e permaneceu na sua aldeia de origem, é agora maioritariamente constituída por pessoas idosas que sentem que as suas terras estão cada vez mais vazias, à medida que perdem os seus vizinhos.

Vivo no meio da aldeia. De um lado, a minha vizinha com cerca de 80 anos passa a maior parte do tempo em casa da filha no Porto. Do outro, a minha “amiga Maria” está, a cada dia que passa, mais dependente. Em frente, vive um casal septuagenário a caminhar a passos largos para os oitenta anos, somando também, de ano para ano, mais dificuldades…

O aumento da esperança de vida, combinada com baixas taxas de natalidade, resulta no aumento do número de pessoas idosas e da tendência de diminuição das gerações mais jovens. Em Portugal, como na esmagadora maioria dos países ocidentais, vive-se o “Inverno Demográfico”, termo cunhado pelo professor e investigador Michel Schooyans.

Esta tendência de envelhecimento, mais notória no espaço rural, tem dois efeitos significativos. O 1.º diz respeito à feminização progressiva da população idosa devido à diferença na esperança de vida existente entre homens e mulheres, as senhoras vivem mais anos. O 2.º é o aumento das situações de dependência. O incremento da dependência é directamente proporcional ao envelhecimento da população.

Embora já se verifique a existência de alguns serviços sociais de apoio, a maioria dos cuidados são prestados pela família. O problema surge quando os familiares estão ausentes…

Uma das principais causas de situações de dependência, é a dificuldade de mobilidade que afecta muito os idosos a viver no mundo rural e que sentem maiores dificuldades no acesso aos serviços de saúde e / ou sociais. O acesso aos transportes, à alimentação e ao comércio é extremamente limitado.

Se o meio rural conta com uma qualidade de vida “natural”, ainda há trabalho a fazer no que concerne à dotação dos recursos sociais, profissionais e económicos que o meio urbano já possui.

O programa de Atividade Física desenvolvido pelo Município, em parceria com as freguesias e associações, é um exemplo de boas práticas e contribui para que o envelhecimento seja mais ativo e saudável.

Estou certo que projetos como o Contrato Local de Desenvolvimento Social – CLDS 3G – e Rede Local de Intervenção Social – RLIS – podem dar um contributo fundamental para informar mais e melhor a população rural dos seus direitos e recursos a que poderão aceder. Os projetos referidos privilegiam os serviços de proximidade, que darão resposta às necessidades reais, tendo em consideração as circunstâncias de cada pessoa e as características de cada povoação.

Devemos apostar, como preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS), na promoção do envelhecimento ativo e na aprendizagem ao longo da vida, integrando toda a população, favorecendo o envelhecimento saudável e participativo que, certamente, será fundamental, para a diminuição da necessidade de cuidados.

O grande desafio dos nossos dias, no que concerne à população mais velha, é fazer corresponder ao aumento da esperança de vida a qualidade de vida de cada pessoa, contribuindo para a manutenção da sua independência e autonomia, sendo estes os arquitectos dos seus projetos de vida.