Exilados somos todos nós!

por Ana Albuquerque | 2016.12.24 - 16:28

 

A definição mais comum de exílio está semanticamente associada à “ausência do solo pátrio”. Mas, na verdade, esta palavra engloba realidades muito distintas: o desterro, o degredo, a emigração, o êxodo, a proscrição, a expatriação, a deportação, o isolamento cultural e linguístico, o lugar do exílio, os sentimentos associados à ausência (solidão, saudade, nostalgia), a incompreensão, a intolerância, a perda da identidade, o silêncio e a solidão ontológica…

Todos vivemos sob o signo do exílio numa ou mais das suas múltiplas aceções. Lembremos os múltiplos conflitos, em várias partes do mundo, para vermos os êxodos, as discriminações, as perseguições, os exílios individuais ou coletivos que afetaram e afetam a nossa História. Disso é prova a necessidade de criação de organizações de apoio a exilados, a emigrantes, a refugiados, a perseguidos políticos e outros, no âmbito das Nações Unidas – organização hoje presidida por António Guterres e de quem todos esperamos tanto!

Desde a aurora dos tempos, a perseguição da diferença, seja ela de opinião, de crenças, de raças ou de princípios, lança nos desfiladeiros da terra homens e mulheres sem pátria, sem nome, sem chão.

Muitos exilados, nas suas múltiplas vertentes, encontraram e encontram na escrita o único remédio. São muitas as isotopias que estão ligadas à literatura de exílio: o tema da ausência, do amor e da saudade sentida em relação à terra-natal; da distância dos espaços e dos tempos; da comparação inevitável entre o ausente e o presente; da imagem obsessiva do passado (apenas recuperado através da memória, dada a irreversibilidade do tempo); do medo da morte em terra alheia e a do homem, errando, continuamente, à procura, muitas vezes, de si.

O tratamento literário do exílio tem contornos muito antigos e universais. Evoquemos, a título exemplificativo, a Bíblia, o desterro babilónico, de que o Salmo 136 é uma das melhores expressões poéticas de todos os tempos. Evoquemos, ainda, Ulisses, herói homérico, e a sua peregrinação até reencontrar a Ítaca natal. Não esqueçamos Ovídio, o poeta desterrado para os confins do Império…

Há na história da humanidade, uma miríade de poetas, quantos deles anónimos, que procuraram e procuram no seu canto o reconforto e a paz possível para aquele que vive exilado, pela perda forçada da pátria ou por viver exilado dentro dela ou, ainda, como dizia Jorge Semprún, por “ser estrangeiro no mundo”.

Neste Natal, quantos de nós somos ainda “estrangeiros” nesta casa que é de todos?