Eutanásia. O medo da morte ficou para trás

por José Ferreira | 2017.02.16 - 14:39

 

Sendo a morte algo de tão particular, íntimo, confinada à família e à pequena comunidade local porque houve necessidade de a trazer para a praça pública? Será porque o velar e chorar os mortos deixou de estar confinado somente aos que lhe são mais próximos, será que a morte deixou de ser “aquele ato normal a que todos lhe estamos reservados”? A evolução técnica e científica veio trazer novas ferramentas que nos fazem encarar a morte não como um ato meramente divino, mas também como o desgaste, a falência própria da parte física que é o homem.

Ou simplesmente começamos a aceitar a morte como sendo o atingir pleno do ser humano. Será que o medo da morte ficou para trás?

O elogio do morto não desapareceu, raramente ouvimos dizer mal de quem morre, se tal acontece porque não elogiar o ato de morrer?

Devido à nossa tão atarefada vida cada vez mais deixamos os nossos doentes terminais sozinhos, no entanto para que essa solidão não seja tão “fria” criamos unidades bem apetrechadas, sobretudo de meios hoteleiros, para nos desculparmos desse descuido para com eles. Se melhorámos as condições físicas de como morrer porque não melhorar também as condições emocionais a fim de que o morrer seja apercebido e não sofrido por quem estiver nesta fase da vida? Simples, porque não confiamos uns nos outros.

Sim, isto tudo para falar da eutanásia. Desde já advirto e admito que não há opiniões virgens, cabe a cada um de nós filtrá-las, contrapô-las e para tal sugiro leituras de ambas as partes: dos Sim, dos Não e sobretudo dos “Nim” sendo estes os que mais utilizam o facilitismo das frases para nos convencerem a sermos Sim ou sermos Não, sem terem a coragem de sair do seu confortável “Nim”.

Arriscando a trivialidade da frase “a Eutanásia tem vantagens e desvantagens” há que começar a discussão. A maioria da população está mal informada, o processo de como o fazer não é totalmente inócuo: há dúvidas sobre quem tem de efetuar, dúvidas sobre dar oportunidade ao próprio de levar a termo a sua vida e sendo o próprio como o fazer sem ser suicídio?

Em relação ao que por aí se escreve gostaria de relembrar que não podemos enveredar pela factualidade, até bem apresentada e direcionada, mas muito pouco sustentada. Tenho como exemplo (aqui) o médico psiquiatra Pedro Afonso ao escrever ”Ao dessacralizar a vida humana, através da legalização da eutanásia, o Estado pode restringir, por exemplo, o acesso a um tratamento oneroso como é o caso da hemodiálise a doentes com mais de 80 anos.”. No mesmo artigo pode ler-se ainda “O Estado poderá restringir os tratamentos mais inovadores e dispendiosos à população mais idosa ou com doenças incuráveis.”

Ainda não se discutia eutanásia, e já outros dissertavam sobre o limite de idade do direito a tratamento. Certamente estarão lembrados da opinião da Drª. Manuela Ferreira Leite “Tem sempre direito se pagar. O que não é possível é manter-se um Sistema Nacional de Saúde como o nosso, que é bom, gratuito para toda a gente. Para se manter isso, o Sistema Nacional de Saúde vai-se degradar em termos de qualidade de uma forma estrondosa” (pode ler na íntegra aqui).

Corria o ano de 2015, e mais uma vez a eutanásia ainda não legalizada, e o ministro da saúde da época vê-se confrontado com “Morte de doente com hepatite C e protesto de um doente no Parlamento levam ministro a comprometer-se “pessoalmente” a elaborar um plano para responder a estes casos“ tendo-lhe sido dito por José Carlos Saldanha, doente portador de hepatite C “O que se está a fazer é um genocídio a uma doença silenciosa. Estou na fila para morrer como a mãe do David” ( link ).

Pergunto, em ambos os casos mencionados qual foi o peso influenciador da Eutanásia para que se questione até onde e até quando, o cidadão tem direito a tratamentos no SNS. Nenhum, aliás de eutanásia na época nada se falava… Não terá sido sim o individualismo do poder? Volto a questionar, caso houvesse fundamento legal estas atitudes seriam, no primeiro caso faladas no segundo aplicadas?

Na minha opinião, caso haja vinculação legal de possibilidade de escolha – legalização da eutanásia – isso sim não permitirá a pertença ao individualismo do poder de decidir tal facto. Como bom exemplo disso lembro que dez anos depois do referendo da despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) há menos abortos, menos reincidência e nenhuma mortalidade materna. Os números disso são bem visíveis, neste vídeo do Expresso. À semelhança do que agora poderá surgir com a legalização da Eutanásia eles desmentem os argumentos de quem se opôs a essa lei e reforça o que acima disse, o fundamento legal positivo destas atitudes leva a que todos sejamos ganhadores.

Sem querer menosprezar os que estiveram do lado do Não, os que se bateram durante anos para que houvesse uma cidadania responsável e livre merecem a nossa homenagem pelos resultados positivos atingidos nestes dez anos. Os que receavam o Sim têm que admitir, que com esta lei, os valores de cada pessoa são respeitados.

A opção de escolha não restringe, não se fecha em si mesmo, antes pressupõe mais que uma hipótese: a Eutanásia e a morte acompanhada em unidades de cuidados paliativos.