EUDAIMONIA – Declarações de Interesse

por Rui Macário | 2015.01.12 - 13:18

 

Neste fim de Outono, alguém empurra uma velha 4L em torno a uma pequena rotunda de acesso a um condomínio, procurando fazê-la pegar; ao longe os festejos por um golo marcado – quem terá sido e quanto estará o jogo? – no campo da bola; mais perto, nas frondosas árvores que não conheço pelo nome e que durante o Verão marulham como ondas quando há vento, agora as últimas folhas parecem alcandorar-se e unir derradeiro fôlego no manter em ramo, como um final e heróico acto de resistência que impere nestes seres que não possuem (deveras?) vontade. Será que se pode estar no Mundo sem se ser parte dele?

Tudo isto a propósito de intenções e declarações de interesse. Potencialmente somos todos parte interessada em algo que nos beneficia ou àqueles por quem nutrimos algum tipo de afecto. Todos temos interesses, não temos é interesse em tudo, o que nos liberta para opinar sobre ou debater acerca de questões externas a esse interesse. Por outro lado, a nossa opinião apenas é potencialmente válida para terceiros se o que se manifesta respeitar à nossa acção/experiência, presumivelmente a algo que nos interesse e pelo qual teremos interesse e no qual seremos parte interessada (directa ou contingencialmente). Se é certo que ter interesse é diverso de ser parte interessada, por exemplo posso ter interesse em pintura e não ser parte interessada na colecção de pintura de alguém, a verdade é que numa dada área de actuação profissional, é difícil não abordar a “coisa pública” numa lógica de análise cidadã/profissional, e ainda assim mantermos a distância do “absoluto desinteresse”.

Voltando atrás, podemos estar no Mundo sem ser parte dele? A este propósito giro sempre em torno aos “lóbis” (diz-me o corrector automático acordatário e evitando o anglicismo) e aos “lobistas”. Parece-me que ser lobista deve ser a mais lógica profissão do Mundo e porventura uma das mais antigas senão mesmo a mais antiga (a “serpente” era lobista…) a seguir a Criador do Mundo e de mundos. Faltam-nos lobistas assumidos porque os lóbis estão cá (chamem-lhe interesses instalados ou “o Sistema” de que há muitos anos o Octávio Machado se queixava). Prefiro um interesse que vem declarado a um interesse que vem oculto. Por exemplo, na minha área de acção profissional e na área geográfica em que “instalei” a minha vida, tudo teria uma declaração de interesse prévio. Isso é maçador e ocupa espaço que por vezes não existe para apresentar tal salvaguarda (e seria mesmo uma salvaguarda?).

Como se poderá então ressalvar a gestão dos hipotéticos conflitos (éticos) de interesse? Imagino que anunciando ou alterando a presunção inicial: não se é desinteressado, é-se sempre parte interessada. Deste modo alguma ironia ou conflitualidade, na recepção de uma opinião, seria mitigada. Quem age é parte interessada, muito para lá de possuir um mero interesse. Eticamente seria impeditivo de uma pronúncia? Deixaríamos de ter opinadores políticos em pouco tempo se assim fosse.

Estar no Mundo é ser parte dele, julgo, pelo que mais vale ser parte interessada e agir de acordo; acordando previamente que nem sempre o interesse vem acompanhado de algum benefício material. É como as ditas folhas que se agarram aos ramos: fincar posição é não apenas possuir como manifestar interesse, ao menos o de querer algo com tal intensidade que nos recusamos a ir a sabor dos ventos.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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