Eu nem tive tempo para viver

por Eme João | 2016.10.14 - 12:47

 

 

Há dezasseis anos atrás, eu era quase uma criança…

Usava trança ou rabo de cavalo. Tinha dois ou três cabelos brancos e já tinha tido plurais empregos, do mais variado possível.

Mas há dezasseis anos tabalhava no controle de qualidade de uma operadora de telecomunicações e gostava do que fazia.

Um dia, recebi um telegrama para ir trabalhar para o Estado. Tinha sido seleccionada num concurso que tinha havido três anos antes.

Confesso que não queria ir, mas todos me diziam que o Estado era o melhor que havia, excepto uma pessoa que me disse precisamente o contrário.

Acabei por ir. Agora, passados dezasseis anos já não uso trança. Contam-se facilmente os cabelos pretos e se me olhar no espelho com atenção, não me reconheço.

Não me arrependo, nem me orgulho da escolha que fiz. Conheci gente boa e da outra também. Desde fascistas, xenófobos, racistas, homofóbicos, etc.

A destrinça entre mim e estes últimos, é que eu sei pouco das coisas e quero um dia ser pessoa-pessoa e isso aprende-se todos os dias.

Faltam dezasseis dias para fazer meio século e isso é tão estranho em mim, que chego a pensar que nada disto existe e desculpo-me porque o fim aproxima-se sorrateiro e rápido e eu nem tive tempo para viver.

Nasceu em Lisboa em 31/10/1966. Estudou psicologia no Ispa. Trabalha actualmente no ISS.

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