Eu não acredito no pai natal…

por Eme João | 2014.12.21 - 16:17

O Natal aproxima-se. Nunca gostei desta época porque tudo no ar cheira a hipocrisia. Temos a caridadezinha que dá muita comidinha aos pobrezinhos e enche a auto-estima dos bonzinhos. Tudo isto muito pequenino, como era de esperar.

Depois ficam todos muito estranhamente bons.

Mas este ano em particular, se não fosse uma providência cautelar elaborada pela federação dos sindicatos da função pública, 700 funcionários da segurança social teriam sido “requalificados”, no dia 18. Como seria ou como será o Natal destas pessoas?

Retirar a alguém o direito ao trabalho é um acto perverso e imoral. A grande maioria destas pessoas dedicou uma vida inteira a esta instituição. A idade da reforma ainda vem longe e a idade para arranjar novo emprego já vai longa. Como vão sobreviver estas pessoas? Como pode um ministro tão cristão, conseguir dormir sabendo que está a destruir vidas?

Já deve estar a pensar em inaugurar mais uma dúzia de cantinas sociais, das quais tanto se orgulha, ao invés de se envergonhar com o aumento exponencial da pobreza neste país.

Um país, do qual pouco resta. Tudo em nome dos mercados, dos interesses mais obscuros que possamos imaginar. Um país falido de valores. Gente que cria uma nova geração de escravos, que retira o direito ao trabalho, que destrói vidas porque o dinheiro e os mercados mandam, gente dessa nunca deveria estar num governo. Mas infelizmente estão.

Como não acredito no pai natal, não posso pedir-lhe a única prenda que realmente me faria feliz.

Contudo, não quero deixar de desejar um bom solstício de inverno, natal, ou apenas boas festas, para quase todas. Para as que não incluo nos meus votos, também lhes desejo uma coisa: uma consciência e vergonha na cara.

Nasceu em Lisboa em 31/10/1966. Estudou psicologia no Ispa. Trabalha actualmente no ISS.

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