Estás disposto a abdicar da tua liberdade em nome de mais segurança?

por José Chaves | 2016.07.23 - 12:43

 

 

Um dos principais objectivos do terrorista é que se coloque em causa os valores da sociedade ocidental. O terrorista visa exatamente isso pois só assim tem a crença de vencer uma guerra que de outra forma nunca vencerá!

É também por isso que o terrorista, ao invés de atacar alvos militares, ataca antes civis indefesos, colocando assim em dúvida toda a nossa civilização e os valores em que acreditamos. Foram com estes valores, adquiridos ao longo de séculos e onde muitos sacrificaram as suas vidas, que fomos percebendo que uma sociedade é muito mais justa e equilibrada quando respeitamos todas as vidas humanas, sem distinção de raça, credo ou ideologia, ou como diz a nossa Constituição no seu artigo 13.º “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão da ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”.

Como podemos responder a pessoas, que entendemos terem os mesmos direitos que nós, que são iguais em dignidade a qualquer um de nós, quando estas agridem de forma cruel e indiscriminadamente seres humanos indefesos por conta de uma ideologia, uma religião ou apenas pelo propósito deliberado em causar o terror e o pânico.

Será possível ainda mantermos a nossa forma de viver perante estas atrocidades cometidas por quem não nos respeita e por quem, por coisa nenhuma, quer que soframos e que abdiquemos das nossas convicções e forma de viver?

Não podemos sacrificar os valores da sociedade ocidental, os direitos que fomos adquirindo ao longo de séculos, o acreditar num modelo que dignifica a pessoa humana e, sobretudo, o acreditar em valores que se foram ajustando a uma forma de viver que fez da sociedade ocidental uma sociedade por um lado almejada por outras sociedades, por outro, o paradigma da mais nobre e admirável evolução humana, porque alguém, em algum lugar nos fez ter medo.

A nossa sociedade para chegar a este nível de civilização, passou por muitas barbaridades e desumanidades, algumas das quais nos envergonham a todos, pela crueldade com que foram cometidos certos atos em nome de um Deus, em nome de uma ideologia e até em nome apenas de uma qualquer ambição, estando, por isso, estes valores impregnados de muita dor, muito sangue e muito sofrimento, não podendo agora nós, por causa do medo, deitar por terra uma evolução e conquistas de vários séculos. O medo não pode permitir que se acabe com séculos de uma história de conquistas enormes para a humanidade em termos de direitos e dignidade da pessoa humana.

Todos os ditadores sanguinários, sem excepção, da história universal, usaram o “chavão” da segurança para conseguirem cortar direitos fundamentais e assim atingirem os seus objectivos. Foi sempre em nome da segurança que as ditaduras, a tirania e o despotismo vingaram, contra a liberdade, a tolerância e a solidariedade.

Não podemos, em nome da segurança, ter medo de quem pretende que tenhamos medo. Não podemos, em nome da segurança, deixar de ser livres. Não podemos, em nome da segurança, abdicar dos nossos direitos e valores. Não podemos, em nome da segurança, reduzir a dignidade da pessoa humana. Pelo contrário, em nome da segurança, devemos elevar a importância da liberdade. Em nome da segurança,não devemos ter medo de quem por medo pratica estes cruéis atos. Em nome da segurança devemos elevar ainda mais a dignidade da pessoa humana e o seu maior corolário – a tolerância

 

 

 

 

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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