Esta raiva que nos fez agir …

por Anabela Silveira | 2015.03.21 - 12:09

 

 

Nestes dias azedos que fomos obrigados a viver, nasceu-nos nos dentes a raiva que nos leva a gritar bem alto BASTA!

Um grito que continuadamente parece embater no muro da insensibilidade construída por quem nos quis ver de joelhos.

Um grito incessantemente gritado pelos que não fixam os olhos no chão e não querem obedientemente lamber o pó tingido de suor, sangue e lágrimas jorrados nestes tempos de chumbo.

Um grito que, ecoando cada vez mais forte, poderá derrubar as teias com que nos quiseram amarrar.

Porque mesmo na noite mais fria, e como têm sido frias as nossas noites, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.

E é pelo NÃO que gritamos com raiva e que nos cresce nos dedos esta força que nos traz aqui e nos faz avançar.

Avançar contra a precarização do trabalho a que nos querem obrigar. Precários em tudo até da felicidade que está nas pequenas coisas.

Avançar contra o desemprego para onde nos atiram, sem dó nem piedade, obrigando ao calvário das recusas, porque os postos de trabalho escasseiam e os candidatos abundam.

Avançar contra a descida constante do preço do trabalho.

Avançar contra o trabalho sem direitos, lembrando outros tempos, outros lugares, quando o pão era mendigado a troco de longas horas de labuta e as grilhetas enrolavam braços cansados.

Avançar contra a necessidade de dar o salto para outras paragens, porque aqui o sustento é pouco possível. Como se nascer, trabalhar, sorrir, amar, viver neste país fosse uma iniquidade.

Avançar contra a miséria que escorre pelos dedos de tantos que, para não morrerem à míngua, estendem humildemente as mãos ao pacote de leite, à lata de atum, à maçã tocada que a «caridade» se encarregou de lhes dar. A morte não pode sair à rua. Tem de ficar confinada a quartos exíguos, onde a electricidade, a água, o gás fazem parte de um outro tempo. Agora, o frio aperta, a comida serve-se gelada e as gotas de água tocam, quando ainda tocam, corpos gastos.

Avançar contra as macas que se amontoam nos corredores das urgências, onde a tosse, os gemidos, as febres marcam os rostos de quem espera e desespera por uma consulta, por uma cama, por tratamentos que dizem ser muito caros. A vida está confinada a uma folha de Excel, na forma de um rol antigo de mercearia. O deve e o haver. Com um sorriso triste, pagam as taxas moderadoras, O deve é sempre bem maior do que o haver. Perguntam-se então pelo serviço nacional de saúde e o ministro responde: habituem-se com este que ainda resta.

Avançar contra o atentado à escola pública que se quer matar aos poucos. Dos seus escombros, rejuvenesce a escola privada, agora com a municipalização do ensino num horizonte próximo. E os investimentos que deixaram de ser feitos. E a acumulação de alunos por turma e por professores. E os apoios que desapareceram ou correm o risco de se tornarem escusáveis. E os professores que foram dispensados. E as áreas que foram negligenciadas, porque há disciplinas imprescindíveis, disciplinas toleradas, disciplinas evitáveis.

Avançar contra a deterioração das condições no ensino superior e da investigação científica.

Avançar contra a hemorragia da geração melhor habilitada para outros sítios onde pode concretizar o que aprendeu. Lá fora, vai criar as raízes que aqui lhe negaram. Lá fora, vai contribuir para outros desenvolvimentos, outras riquezas. Depois ela fará ouvidos moucos aos patéticos VEM bradados por quem lhe disse «Partam já e em força»

Avançar contra a espoliação contínua e continuada de quem uma vida inteira trabalhou e descontou. Agora, quando pensavam que inverno da vida seria calmo, vêem as pensões capturadas, tendo de contar e recontar os cêntimos sobrantes, porque estes têm de chegar para a ajuda dos filhos desempregados, para o lanche dos netos.

Avançar contra a senha que se abateu contra a função pública, erigida como a causadora de quase todos os males e a quem se adelgaça o ordenado ao mesmo tempo que se aumenta o horário de trabalho.

Avançar contra os fizeram da política uma confraria de interesses moais ocultos ou mais destapados, em que o que importa é servir-se. Ao virar da esquina, as prebendas espreitam.

Avançar contra um governo que, através de um irónico sorriso loiro, se gaba de ter os cofres cheios. Um vento pestilento soprado de um outro tempo em que cofres cheios rimavam com bolsos vazios. Como agora estão os nossos.

 

Muitos de nós somos já filhos de Abril.

Esse Abril dos 3 D, que trouxe o sorriso ao rosto de muitos e fez da esperança o novo cântico.

Esse Abril que alguns quiseram aniquilar.

E é por esse Abril, que nos permitiu construir o que hoje vemos escapar por entre os dedos, que é tempo de avançar

Avançar porque queremos uma sociedade justa, onde cada um seja pessoa.

Avançar porque queremos um diálogo à esquerda capaz da construção de compromissos que possam tirar-nos do lodo, da tristeza, da desesperança em que mergulhámos

Avançar sabendo que precisamos de um outro sentido da e na Europa. Será possível ainda reinventar a Europa dos cidadãos?

E avançar por queremos novamente Abril. O Abril das palavras de Sophia:

“O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.”

 

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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