Essências

por Rui Coutinho | 2015.06.02 - 13:04

 

O conhecimento milenar sobre as propriedades das plantas aromáticas remonta a países como a India e a China. Ao longo de vários séculos, a sua utilização tem abrangido múltiplos fins: os religiosos, os medicinais, os cosméticos e os gastronómicos. É, no entanto, durante a Idade-Média que a produção de óleos essenciais sofreu um enorme impulso, fruto do laborioso trabalho desenvolvido pelos muçulmanos que introduziram e difundiram a destilação como o processo para a sua produção em maior escala

Nos dias de hoje, o tratamento de várias doenças recorrendo a métodos alternativos como é o caso da aromoterapia (terapia pelos aromas) acolhe cada vez mais adeptos e seguidores. A nível farmacêutico, o vasto conhecimento adquirido sobre estes compostos resulta das inúmeras experiências realizadas ao longo dos tempos, a que por certo não serão indiferentes os acidentes que ocorreram no aprimorar do seu processo de extracção. A título de exemplo, podemos referir que as propriedades terapêuticas da lavanda (alfazema) no tratamento de queimaduras foram testadas aquando da ocorrência de um grave acidente em laboratório.

As substâncias aromáticas, em muitas situações reduzidas a um formato sólido e oleoso, acumulam-se nas folhas, frutos, película e sementes nos seus diferentes organelos. Estes compostos são classificados maioritariamente como substâncias terpénicas, as quais podem ainda ser qualificadas como álcoois, ésteres, aldeídos e cetonas. A panóplia de aromas florais e frutais que muitos de nós detectamos com naturalidade em muitos produtos resulta da sua actuação.

Em termos alimentares, denotamos a demanda cada vez mais acentuada no seu uso, quer num formato simples, quer como resultado da combinação de diferentes ervas ou essências em novos produtos. A sua utilização tem, entre outros atributos, o propósito de melhorar a palatabilidade da comida, procurando em simultâneo diminuir a utilização do sal, aspecto muito valorizado na actualidade. Em termos agrícolas, os compostos aromáticos conferem a algumas plantas a capacidade de atrair vários insectos polinizadores possuindo ainda, em algumas situações, um efeito repelente. Estas propriedades têm merecido a atenção de muitos interessados, como é o nosso caso, na procura e análise dos possíveis processos de extracção tendo em vista distintos fins.

O processo de extracção de óleos essenciais baseia-se na capacidade das substâncias aromáticas se dissolverem em solventes inorgânicos, como é o caso da água, e em orgânicos, dos quais destacamos o benzeno e o etanol (álcool) como os mais utilizados.

No processo de hidrodestilação e da extracção em corrente de vapor, socorremo-nos da água. O álcool foi empregue na técnica de arrastamento em corrente de vapor. A estes processos é ainda possível acrescentar a utilização de fluídos supercríticos (muito dispendioso), bem como o longínquo processo designado enfloração (enfleurage) que se baseia na deposição das pétalas numa camada de gordura e posterior prensagem. Trata-se de um procedimento secular há muito difundido na indústria dos perfumes.

Em termos políticos, os diferentes processos de extracção ou não parecem estar na ordem do dia. Uns prometem extraírem-nos menos e repor algumas situações, outros arquitectam manter tudo em idênticos moldes.

A ser assim, talvez seja prudente continuarmos a desenvolver o nosso trabalho e, quiçá, conseguir desenvolver um novo sistema de modo a extrair apenas o desejável para os fins apropriados.

 

 

 

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

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