Essencial e acessório

por Alexandra Azambuja | 2014.06.06 - 11:55

A guerra de secretaria do PS, a guerra de secretaria entre o governo e o Tribunal Constitucional são como a maioria das guerras de secretaria: sem sentido.

Consomem tempo e energia, dinheiro e nervos, dias e noites, rios de tinta e palavras e o calor das palavras – proferidas, repetidas, interpretadas, difundidas, torcidas, contrariadas, veiculadas – perde-se antes de chegar a bom porto.

Temos portanto – como em tantos outros aspectos em Portugal – a discussão entre preto e branco, entre 8 e 80, com se a vida não existisse nos muitos outros cambiantes de cores e números.

Vem isto a propósito do estéril que é um país que parece digladiar-se na refrega político-partidária, político-institucional, sobretudo porque essa é a guerra mediática, a guerra que vende notícias, a guerra que alimenta a máquina monstruosa da “opinião publicada” coisa bastante diferente da opinião pública!

Essencial é o país e o país são as pessoas.

Tal como quando crescemos e aprendemos que os amigos de escola são aqueles que nos ajudam nas dificuldades e não aqueles que nos dizem palavras bonitas, é já tempo – há muito que é já tempo senhores! – de desligar o botão do tempo de antena, ignorar bandeirinhas eleitorais, esquecer o recado repetido mil vezes que torna a mentira verdade e usar a própria cabeça, querer saber.

Querer saber, para qualquer cidadão implica fazer perguntas, sempre que houver oportunidade de ter uma resposta qualificada. É por isso – e não por escrever em jornais – que faço perguntas sempre que posso.

Pergunto à funcionária dos correios se depois da privatização o tarifário ficou mais caro. Diz que sim. Se já fecharam estações. Diz que não…

Pergunto a uma amiga enfermeira que trabalha no hospital como estão de cortes, de dificuldades, se falta material, como é de folgas e turnos.

E pergunto aos fornecedores se sentem a retoma e aos clientes que exportam como está a correr a experiência em Moçambique e Angola.

Pergunto à caixa do Ulmar se os clientes voltaram, à professora como está a correr a reforma dos programas, pergunto à Câmara Municipal como é do Orçamento Participativo. Pergunto ao amigo viajante como está o património construído em S. Petersburgo, pergunto aos emigrantes como é Portugal visto de fora. Pergunto ao empresário na Marinha Grande se é verdade que o sector dos moldes não consegue responder a todos os pedidos, depois da retoma das multinacionais a quem correu mal a experiência na China.

Pergunto a gente que trabalha na cerâmica da região porque recusam encomendas para perceber o que é a economia real.

Pergunto a empresários porque não participam mais em feiras, pergunto aos dentistas se aceitam cheques-dentistas.

Muitas pessoas acham que sou compulsiva e devia tratar este “transtorno perguntativo”.

Mas perguntar é só tentar ler o mundo para lá da cartilha pré-determinada que os jornais e a televisão infelizmente são obrigados a cumprir, se querem ter anunciantes e pagar salários…

Não sou jornalista, não tenho uma bateria de assessores a preparar-me material para emitir opinião, por isso, resta-me ser perguntadeira. Tentar pular o arame farpado da comunicação social, filtrar, filtrar e filtrar.

A televisão é um objecto obsoleto cá em casa. A esmagadora maioria da informação chega-me pela net, o resto é trabalho de sapo, tentar conferir, validar.

Se resulta?

Às vezes sim, outras não.

A verdade é uma entidade esquiva, escorregadia, teima em mascarar-se de muitas formas e cores, às vezes veste-se de 8 outras de 80.

Cá pra mim acho que a verdade é uma coisa mutante, sobretudo nas guerras de secretaria.

Mas eu acredito que a vida, as pessoas, são aquilo que importa, que está lá fora, ao virar da esquina, muito longe daquilo que teimosamente insiste em nos entrar pelo écran dentro.

Eu disse para não consumirem televisão, jornais ou rádio?

Não disse.

Disse só para validarem o que nos insistem em dizer, com a vossa realidade próxima.

Às vezes confere…

Também podem dizer que eu para além de perguntadeira não regulo bem da cabeça. E podem continuar a achar normal que os editores coloquem as notícias do futebol à frente de tudo o resto.

Sendo que tudo o resto é o que decide a minha vida.

E a vossa…

A boa notícia é que podemos fazer alguma coisa sobre isto. Podemos desligar o botão, mudar o canal, podemos fazer perguntas, podemos fazer a realidade mudar. Podemos optar dentro de alguns limites se vamos passar pela vida de forma transparente, na corrente, ou não.

E a escolha entre o essencial e o acessório – este cubo mágico onde devemos sentar-nos para reflectir – ainda é nossa!

Qualquer que seja o resultado das guerras de secretaria a que assistimos, importante continuam a ser as pessoas.

E o resto, senhores, é paisagem…