Entre o consenso e a divergência: a diferença como caminho a seguir

por João Salgueiro | 2015.04.28 - 08:32

 

Nos últimos anos temos vivido em Portugal sob o signo de um duplo consenso: o consenso dos que governam, que procuram fazer prevalecer o discurso único, assente na austeridade; e o consenso de oposição, que afirma os méritos e a necessidade da melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

Do lado dos primeiros, afirmam-se as vantagens da expectativa da continuidade dos programas de estoicidade, equivalente a mais pobreza, conformidade e desigualdade. Do lado dos segundos, a defesa acérrima da integração social constitui a cereja em cima de um bolo já recesso e a criar bolor. O consenso de oposição assenta na pregação dos méritos da mudança para um mundo mágico de melhoria das condições de vida dos trabalhadores / desempregados e da igualdade. A desagregação da sociedade aparece como o caminho a seguir.

Entre uns e os outros, parece existir um imenso vazio, um eucaliptal que rapidamente tende a secar as ideias, fazendo ecoar aos nossos ouvidos dois consensos contrapostos, mas ambos conservadores. O daqueles que afirmam as certezas de que a economia funciona bem, com menos Estado, mais mercado e mais privatizações, e o dos que contrapõem, uma política de mais Estado, menos mercado e mais nacionalizações. Os primeiros fazem suas as ideias impostas de um centro cada vez mais imanente, a partir de Bruxelas e de Frankfurt, os segundos, procuram vender-nos a ideia de que a saída do Euro é que era: iriamos recuperar a nossa soberania outra vez!

Os recentes desenvolvimentos vieram tornar mais premente a necessidade de afirmar a diferença e a divergência relativamente a estes dois consensos, tantas vezes mascarados de revolucionários. Foi esse o caso da atual coligação governativa que, com um desplante temerário, pretendeu dar um salto em frente, mascarando-se de baluarte de Abril. Do outro lado, o ritual do costume: Avenida abaixo, canta-se a Grândola, salpicada de cravos vermelhos, de palavras de ordem e cartazes cáusticos. Uns e outros encontram ainda algum tempo para passarem pela Assembleia da República e, seguindo o exemplo de um Presidente já decrépito [é caso para dizer: “vamos deixar o Dr. Cavaco acabar o seu mandato com alguma dignidade”], fazem os respetivos representantes seguir a cartilha e o ritual do costume.

Neste quadro, o PS de Costa parece estar ainda prisioneiro de uns e de outros e não saber bem ao que anda. Começa por afirmar a política do silêncio [seguindo aqui o trajeto de Seguro para ascender à direção interna], depois a contradição em Mandarim, para chinês ver: “estamos melhor agora do que há quatro anos atrás”, enquanto, em português, faz propagar os deméritos da política do atual governo. As viagens pela Europa, passando pelas minúcias socialistas no poder e a recente apresentação da política económica da década para um governo socialista, ainda não chegam para convencer os mais céticos.

António Costa e o PS terão de fazer muito mais para se afirmarem como alternativas de governo e, para isso, precisam de dizer ao que vêm e como pretendem governar melhor, com uma política diferente, em Portugal e na Europa, onde tanto há que mudar!

Mas os últimos consensos dos partidos do “Arco do Poder”, em que o PS se deixou enredar, como a apresentação de um “plano prévio” para a cobertura jornalística das próximas eleições, num assomo bolorento e passadista, fazem temer pelo pior.

A indistinção parece continuar a ser o lema e a afirmação da divergência e da diferença parecem ser apenas ações de cosmética.

Desta forma, os portugueses só podem afastar-se mais dos políticos que temos.