Empobrecer

por Norberto Pires | 2014.05.08 - 20:19

Portugal tem vindo a empobrecer há décadas e não tem sido capaz de perceber essa realidade. Teve momentos de esperança e de aparente inversão do ciclo de empobrecimento.

A adesão à comunidade europeia foi nisso um bom exemplo. A entrada de fundos comunitários, o investimento em infraestruturas, a melhoria visível das condições de vida da generalidade das pessoas proporcionou uma prosperidade aparente, mas pouco sustentada, que foi sendo gerida em ciclos demasiado curtos para terem dimensão estratégica global.

O exercício de planeamento desapareceu, deixou de fazer parte do nosso modo de vida, e não há compromissos a médio e longo prazo que balizem a ação dos vários agentes políticos. O país deixou de pensar em si, de olhar para o mundo e de se posicionar, mas mais importante do que isso não identificou verdadeiramente os caminhos que tinha de seguir para fazer face às dificuldades que os vários diagnósticos foram identificando.

Consequentemente, não discutiu os problemas e não simulou as possíveis soluções, analisando as suas várias implicações. Hoje, depois de mais de 90 mil milhões de euros em fundos comunitários, Portugal é um país mais desigual, mais desequilibrado, mais isolado, que não cuidou daquilo que o poderia diferenciar, e foi incapaz de gerar as oportunidades para manter e atrair para o país as pessoas que são capazes de criar valor. Antes pelo contrário, construiu infraestruturas de que não precisava, que não consegue manter e que não servem para nada.

Por fim, tirando raríssimas exceções, o país não consegue perceber a ideia de criar dimensão para ter sucesso. Não percebe o valor da associação de pessoas e organizações, estabelecendo sinergias e planos de desenvolvimento comuns que tenham a capacidade de conseguir os meios financeiros, humanos e organizativos para de forma eficiente construir projetos que sejam motores de desenvolvimento, criando valor e emprego de forma sustentável. Mas também que fossem capazes de tirar partido das potencialidades de cada região, diferenciando-a de forma inteligente, digo eu. Em suma, foi incapaz de perceber que o dinheiro só é importante como forma de realizar ideias e projetos amadurecidos, bem pensados, que visam reforçar as potencialidades regionais, preferencialmente em sinergia com parceiros relevantes, criando dimensão, e que tenham sempre em mente a sustentabilidade final dos parceiros envolvidos, a criação de valor e de emprego.

Empobrecer é consequentemente o resultado da ausência de planeamento, da ausência de propósito, da ausência de objetivos que sejam estruturais, por serem necessariamente de médio e longo prazo, da ausência de reflexão e de compromisso. Mas também da incapacidade de definir objetivos mais gerais, com dimensão estratégica, e indicadores de avaliação que permitam acompanhar, de forma contínua, os resultados obtidos em cada projeto e decidir do curso do investimento.

Empobrecer, depois de mais de 90 mil milhões de euros de investimento em Portugal, é o resultado de insistir em viver no curtíssimo prazo, no imediato (construindo planos estratégicos só como porta de acesso a fundos), naquilo que garante o sucesso do próximo ciclo de curto prazo, pulverizando o investimento em pequenos projetos muito localizados, em “festa” e feiras de vaidades, não cuidando das necessidades reais e dos mecanismos que permitiriam, de forma sustentada, tirar valor da qualidade de território, dos produtos endógenos que têm qualidade diferenciadora e dos processos de desenvolvimento local com potencialidades competitivas no cenário nacional e europeu.

Mudar este cenário nem tem nada de novo. Existem experiências por essa Europa fora, no Desenvolvimento Regional, mas também na Ciência e I&D, que mostram como estes processos de investimento devem ser encarados, propostos, avaliados e acompanhados, garantindo que se atingem sempre os objetivos propostos ou, em caso de dúvida, que o investimento é terminado. Empobrecer não é uma sina, mas é urgente perceber e inverter a situação porque não existirão mais oportunidades.

(Publicado no Diário As Beiras de 8 de Maio de 2014)

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

Pub