Em nome de Deus!

por José Chaves | 2016.08.13 - 20:48

 

Desde sempre, ou pelo menos desde que a pessoa humana passou a tomar consciência de si mesmo, que sempre foi atormentada pela dúvida da sua própra.

Também desde os primeiros tempos que a forma mais fácil de a explicar e também entendida por todos, mesmo os menos capazes, foi através de uma entidade divina que seria a responsável por esta mesma existência.

Todas as religiões, sem exceção, explicam a existência humana através de uma entidade superior. Todas elas, também sem exceção, explicam que esta vida é apenas uma passagem para uma outra vida, essa mais plena e mais conseguida. É aliás, com esta explicação que se dá sentido às religiões, justificando-se a existência humana através de uma espécie de aprendizagem, evolução espiritual e até de avaliação de comportamentos para uma outra vida. A vida não acaba aqui e com determinados comportamentos pode-se alcançar a tal vida eterna, muito mais plena de felicidade.

É também por isso que o apogeu destas crenças e depois se transformou numa fé inabalável, é a ressurreição de Cristo – a prova efectiva que a vida não acaba aqui e que há outra vida para além da morte -, que, entre outras coisas, fez a religião cristã ter a aceitação que foi tendo ao longo da história da humanidade. Com este acontecimento, finalmente houve a prova que a vida não acabava com a morte física. Ora tal acontecimento, para além de justificar todas as crenças, trazia uma coisa nova e que dava um certo bem-estar a todos: primeiro porque sabiam que através dos comportamentos que a Igreja lhes impunha e ainda impõe, podem almejar a tal vida eterna e não morrer com a morte física, e por outro lado, conseguia-se atenuar as terríveis dores da perda de um ente querido, pois estava justificado que se iriam encontrar mais tarde na tal vida eterna e plena de felicidade.

Até aqui nada de mal nisto, muito pelo contrário, pois até que, segundo todas as indicações da maioria das religiões, o comportamento para almejar essa vida eterna, seria um comportamento de respeito pelo próximo, com muito amor, solidariedade e tolerância. Mas nem sempre isso aconteceu, o próprio cristianismo, em nome de Deus e para almejar a tal vida eterna, cometeu atrocidades que nos envergonham a todos, desde logo as Cruzadas e o período da Inquisição, ou seja: em nome da fé e de um comportamento que a Igreja impunha para uma vida eterna, matavam-se e torturavam-se pessoas – muitas deles indefesas -, infligindo sofrimentos atrozes, apenas por não acreditarem.

Chegados aqui, como é que se justifica que alguém dê a própria vida – exactamente o contrário do sentido do que fazemos desde que nascemos –, para em nome de um comportamento imposto por uma religião poder alcançar uma vida eterna?

Os atos terroristas que assistimos, todos eles suicidas, revelam que estes são cometidos para que os seus autores alcancem uma vida eterna, para que os seus autores sejam vistos aos olhos de Deus, como alguém que fez o maior dos sacrifícios – deu a sua vida pela causa de Deus. O que eles fazem é, nem mais nem menos, acreditar que alcançam uma vida eterna e plena de felicidade, se cumprirem escrupulosamente os desígnios de Deus – não foi afinal isso que fizeram os cristãos em outra altura? O que mudou entretanto para que nos dias de hoje os cristãos não aceitem uma coisa destas?

Apenas se alteraram as condições de vida das pessoas. Hoje o mundo ocidental e por conseguinte dos cristãos e sobretudo dos católicos é um mundo onde as pessoas vivem com os mínimos de dignidade, os sacrifícios pessoais em nome de uma fé alteram-se significativamente e a tolerância passou a ser a palavra de ordem.

Nunca os atos atrozes e criminosos dos terroristas tem como causa cimeira a religião. A religião apenas tem servido para que a ambição do poder possa tratar as pessoas como meros objectos para alcançarem os seus objectivos, e para isso, nada melhor que falar em nome de um Deus e de um comportamento que garante vida eterna e plena de felicidade, para os levar a fazer o que se quer. Por isso é que a questão das desigualdades, como bem explica o Papa Francisco, é tão importante: com menos desigualdade e mais dignidade para as pessoas, seria muito mais difícil aos “homens do poder” conseguirem usar estas pessoas para em nome de um Deus sacrificarem as suas próprias vidas.

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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