Em Marcha lenta…

por Amélia Santos | 2015.10.21 - 09:38

 

Passamos a vida a iludir-nos com «o futuro». A iludir-nos, pensando que ela vai ser longa e intensa e cheia. Passamos a vida a distrair-nos com ilusões. De conseguir uma melhor casa, de comprar um carro mais recente e umas roupas mais à moda. Passamos a vida a encher-nos de ilusões de que ela não acaba, nem muda, e que nos vai permitir fazer e desfazer. Comprar e vender. Pôr e dispor… E não pensamos no fim, nem na última fase, nem como é que vamos passar os nossos derradeiros dias… na marcha lenta que nos aguarda…

Por vicissitudes da vida, nas últimas semanas, tenho passado algumas horas num lar da terceira idade. Além do murro no estômago que levamos quando temos ali os nossos, inevitavelmente vamos convivendo com os demais e, a certa altura, esta gente passa também a fazer parte do nosso universo e dos nossos pensamentos. Encontramos todo o tipo de idosos e todo o tipo de famílias. Dos mais lúcidos, aos mais alheados. Dos que têm visitas com regularidade, aos mais desamparados e solitários. Regra geral, é a incapacidade física que (n)os transporta para estas casas e, invariavelmente, o pensamento vai ficando torpe, coxo, como o corpo. E a alegria, essa, foge e leva os pés e as pernas…

Assim se vive a terceira idade. Assim se vive, ou sobrevive, num lar da terceira idade. A tentar que o tempo passe. Que passe o tempo. Que passe. Mas passe para onde? Para outro tempo… Porque outro espaço já não se vislumbra. Já não se sonha. Já não se acredita. E a vida corre assim, entre companheiros tristes e cansados e doentes. E tristes… E tristes… E tristes… Alguns decidiram alhear-se. Não querem ver. Recusam-se a ouvir. Olham para o vazio. Olham o vazio horas sem conta. Dias sem conta. Meses sem conta. E o vazio invade-os. Inunda-os. Os vazios confundem-se. Perde-se a alma nos corredores sem luz. Não há resquícios de vida. Morreram, ainda que os seus corpos inertes teimem em ficar ali, em marcar a presença na sala de refeições e no sofá ao lado dos outros.

De repente, parece que estamos a assistir a uma ópera, sem esplendor. Sem o esplendor dos figurinos, nem dos cenários, nem da música, porém com toda a carga dramática que lhe é própria. Drama, sofrimento, excessos, até duelos e ameaças. Personagens grotescas contracenam com as vulneráveis, meigas, as boas da história. E a peça vai-se construindo como no teatro… Alguns são apenas figurantes. Outros têm breves participações. E a vida passada mistura-se com memórias difusas, talvez de sonhos… Todas as personagens são contadoras de histórias. Umas optam por escolher uma fase da vida e revivê-la até à exaustão. Repetem o mesmo nome, ensaiam a mesma cena vezes sem conta. Como se o dia da estreia fosse amanhã. Não saem da personagem que foram, nem um só segundo. E gritam, clamam… Não me sai da cabeça aquela senhora que chora pelo marido que lhe morreu há um ano. E chora há um ano da mesma maneira e com a mesma intensidade. Chora pelo marido que a maltratava e lhe batia. O que há nisto de sonho? É apenas teatro. A tal personagem que encarnou uma vida inteira teima em estrear-se. Em não desistir da cena que criou e ensaiou incansavelmente.

Há outra meiga senhora que revê a sua vida à luz de um romance que não chegou a ler. Ora encarna o papel de narrador ausente e relata friamente o que sabe ou ouviu. Ora participa na história que conta e reconstitui diálogos. Uns ternos com os filhos. Outros confidentes com a vizinha. Outros tensos com o marido. E levanta-se e anda, anda, anda, sem destino nenhum. Em vaivém. Corredor abaixo, corredor acima. Mistura as vivências e coloca-se numa analepse. Prefere o passado longínquo. Opta pelo tempo em que todos eram felizes e ninguém estava morto e a vida estava cheia e era bela e havia tanta coisa para fazer. A casa, os filhos, as compras. As ilusões e tantas preocupações. Tantas pré ocupações… Outra há que canta de manhã à noite. Canta ou assobia. Como se fosse um passarinho. Um passarinho que chega a enervar de tanto chilrear. Canta. Canta. Como se fosse alegre o seu canto. Como se quisesse que ele fosse alegre. Numa tentativa de enganar a tristeza, de ludibriar as lágrimas. «Ela canta, pobre ceifeira. Julgando-se feliz talvez. Ouvi-la alegra e entristece».

E, devagar, segue a marcha. Sem pressa. Sem ânimo. Com tempo, mas já sem tempo…

Em velho, “(…)Só terei uma experiência extraordinária.  Fecharei minha alma a todos e a tudo/ Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo/ Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim.”

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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