Em contra-relógio

por Silvia Vermelho | 2013.11.28 - 16:46

Por semana, costumo passar mais tempo em comboios, ou em deslocações no geral, do que em casa, pelo menos sem ser a dormir. Há já há alguns anos que é assim. Incomodou-me em algumas fases de maior cansaço ou impaciência, mas a verdade é que não sei ser sem estar a caminho.

Estar a caminho está em coerência com a humildade que tenho perante a nossa existência, em que as passagens estão sintonizadas, e a alma a caminho encontra o corpo a caminho.

Seria mais fácil de perceber se este caminho fosse como um jogo de computador – a ideia de obstáculos, percursos labirínticos, missões e tarefas a cumprir para o desbloqueio das passagens secretas. Mas o nosso caminho é muito mais complexo, estou em crer, pois temos a responsabilidade não apenas de avançar mas de garantir que, antes disso, já lançámos a outra poldra para nela conseguir pôr o pé.

É nesta tarefa de equilíbrio, no meio das aprendizagens e de perguntas, que reside a minha sensação permanente de estar em contra-relógio. Tanta coisa para fazer no mundo, com o mundo e pelo mundo, e as folhas do calendário a esvoaçarem, desdenhosas, dos nossos esforços aparentemente inglórios.

É ao relógio que devo a determinação em me fazer mais que uma alforreca, todos os dias. Nem sempre sou bem-sucedida, claro, mas se não fosse o relógio este meu objectivo de combate à inércia, à dessensibilização e à indiferença não teria esta urgência que torna a missão messiânica.

Os dias que vivemos são dias de questionamento de modelos vigentes enraizados e do discurso uniformizado do pensamento alinhado e da não alternativa. Se pensarmos no que nos acontecerá depois de pôr uma poldra neste rio agressivo e violento, cedemos perante o gigantismo da tarefa. Estar em contra-corrente sem pedra filosofal que nos safe, em contra-relógio, pode desanimar qualquer um/a.

No tempo que temos, que é sempre o tempo que nos resta, temos a opção de tomar opções, sempre, e escolher ser sedimentos de um rio destrutivo, agressivo e que corre sem freios, ou escolher ser suas poldras e diques naturais, que permitam a permanência e a evolução dos ecossistemas em seu redor.

O tempo que temos é sempre o tempo que nos resta para nos re-humanizarmos e estou absolutamente concentrada neste objectivo – no que faço, no que me faço pensar e no que escrevo. Alinhada em desalinhar, pois, ainda que em contra-relógio…

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

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