Em 2014, Natal todo o ano!

por António Soares | 2013.12.27 - 11:42

Na época Natalícia, em família, à volta de uma mesa recheada de tradições, contam-se histórias de outras épocas, de gentes que o tempo nos privou, revelam-se as suas singularidades e os seus feitos.

Quem ouvir os contos com atenção, não esquece que havia um homem, lá na aldeia, que consumia sozinho mais de 5 litros de mel por ano por acreditar que isso o mantinha saudável. Outro, pressentindo para breve o cerrar de olhos eterno, cedeu a chave da sua adega ao melhor amigo, e ordenou-lhe que levasse cada homem que fosse ao velório a, antes de tudo, provar o vinho.

Inúmeras vezes ouvimos falar daquele dia, há tantos anos cuja data exacta a memória não alcança, onde do céu brotaram pedras de gelo que arruinaram os campos cultivados e fuzilaram uma galinha que passeava desprotegida.

Os olhos dos mais novos arregalam-se, os cantos dos lábios afastam-se quase com um repelir mútuo, e todas as atenções se focam no portador da palavra que, regra geral, tenta em vão esconder alguma vaidade de narrador.

A vida parece mais simples aos olhos daqueles que viram mais Outonos e Primaveras, e, relatada por eles aos mais novos, parecem contos saídos de um pergaminho encontrado num baú no fim de um qualquer arco íris. São sementes, lições da vida, lições para a vida.

Então, o Natal acaba. Os mais velhos retiram-se. As brasas da lareira enfarruscam-se. Arruma-se a mesa, guardam-se algumas sobras que certamente serão aproveitadas, e as vidas retomam a normalidade. Pensamos no que há-de vir.

2013 fica marcado por aqueles a quem a pátria, vezes de mais liderada por servos de interesses alheios aos de quem deve servir, se tornou infértil, impelindo-os a partir.

Este eterno triste fado, cantado e contado, comum a tantas famílias, teima em actualizar-se a cada geração. Agora, essa ave necrófaga paira sobre os da minha, como um abutre à espera da carcaça de um corpo que dá os últimos suspiros e desiste da vida.

O desemprego e a emigração forçada rodeiam-nos como uma jaula cuja resistência das barras de ferro cerceia os sonhos, desvanece a esperança e, por vezes, nos faz aceitar a resignação com fatídica normalidade.

Nós, aqueles que se encontram em idade activa, que tantos recursos consumiram para se formar e que anseiam por dar início a uma vida e a uma família, num sítio que há muito haviam escolhido para viver, vivemos em constante sobressalto de nos ver privados de qualquer uma delas.

Como escreveu Paulo Neto, “hoje, ser jovem em Portugal é só um privilégio etário pois contaminado e tornado pesadelo vivencial pelo descalabro económico em que vivemos”, associado ao descalabro social e moral.

Que 2014 seja um ano atípico, que rompa com os mais recentes. Que seja marcado pelo estrangular desse caudal incessável que tem sido o desemprego e o trabalho precário, que conduz à emigração forçada. Que quem quer ficar não seja obrigado a partir. Que homens e mulheres, pais e filhos, famílias inteiras não sejam obrigados ao trabalho escravo, à submissão ou à separação forçada como formas de sobrevivência, em prol de jogos macro económicos.

Que daqui a uns anos, com os da minha geração como narradores, os contos à mesa em época Natalícia não sejam uma colectâneas de partidas, afastamento, precariedade, e lutas por sobrevivência que levem os jovens a desistir das relações humanas e deste belo país que é Portugal.

Melhor ainda, que o Natal não sejam apenas dois dias. Que ao longo do ano os Portugueses se possam reunir em família, partilhar histórias que arregalam os olhos e forçam os lábios a sorrir de esperança. Que Portugal, eternamente engrandecido pela coragem dos navegadores, não continue um barco à deriva.

Todos nascemos debaixo do mesmo céu; sorria o mesmo sol a todos.

Um bom ano, com saúde, amizade e prosperidade a todos os que sobem esta rua.