Educação e mentir com classe

por Luís Ferreira | 2017.02.20 - 19:52

 

 

Ser educado é, e sempre será, uma virtude. Talvez por esse motivo, desde muito pequenos nos ensinem a deletrear um “obrigado” ou um “se faz favor”, mais não seja para ganhar um rebuçado. Acontece que, por vezes, parece que esta tradição se tem vindo a perder. (Não a tradição de engordar os pequenotes, mas sim a tradição de os educar.) No entanto, a reflexão sobre a evolução temporal da importância da educação deixo-a para o prezado leitor. Não obstante, em todas as ocasiões há sempre uma educação, classe e reputação a manter. No meu tempo, tão velhos tempos, lembro-me bem de ouvir o meu pai a comentar com professores: “Ele até pode ser burro, mas faltas de educação não admito!”.  E a verdade é que burro ou não, asneiras sem maldade de lado, há educação.

Mas… e mentir? Fomos educados a mentir? E até que ponto é eticamente tolerável? É complicado afirmar. Mas decerto que já todos mentimos, com classe ou não. Eu, por cá, vou mentindo para fazer rir. Palhacito, eu sei, mas estão a rebocar o seu carro! Outros mentem, na sua genuinidade, porque não fizeram os trabalhos de casa. E aqui percebemos que mentir é também um jogo de criatividade. O Zé não fez os trabalhos porque o cão lhe roeu a folha toda (mas já depois de os ter feito, claro!). A Carla porque ontem foi dia de jantar com a avó, e o Toninho porque a mãe achou que era coisa a mais para o rapaz fazer. (A propósito, deixe-me contar-lhe que, no meio destes três, veio-se a saber que o Toninho, embora preguiçoso, foi sincero. Acontece, também!). No entanto, se for o padre a mentir a situação é diferente. E se for o sacristão? Também! Tudo isto tem muito que se lhe diga …

Naqueles meus tempos áureos de miúdo, de vez em quando ouvia aquele amigo mais atrevido, em situações de aperto e sentença, dizer que não teria mentido: omitiu a verdade! Espertalhão! Mas… e se fosse um ministro a dizer-lhe isso? Se mentiu ou não ainda não sei, mas há uns dias ouvi um a dizer que afinal não mentiu, mas que poderia ter ocorrido um “erro de perceção mútuo”. Fez-me lembrar um outro miúdo que batia noutro, mas que também chorava de culpa. Ou aquele que no meio de um “julgamento” escolar afirmava imediatamente: “Eu não fui!”.

Há mentirosos que o são porque se acham engraçados. Outros porque a sua genuinidade infantil o permite. Alguns por pura maldade. E outros porque é mais fácil e menos problemático. Saber até que ponto uma mentira é aceitável, é algo subjetivo. Mas admitamos que mentir com classe até tem a sua piada. Acredito que o Zé e a Carla de quem há pouco lhe falei, inventaram aquele gaguejado à última da hora… mas nem quero imaginar o tempo que Centeno levou até se lembrar daquilo. Tá boa, sim senhor ministro, seu safado! Desta vez conseguiu matar o assunto (pelo menos para alguns!).

 

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

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