E a culpa é do jornalista?

por PN | 2017.01.02 - 10:11

 

Sob o título “Comparar o incomparável“, a politóloga Patrícia Calca, faz uma análise lúcida de “algumas” das limitações dos jornalistas de hoje e das consequências delas advenientes. De facto, com frequência, somos levados à crítica acerca de uma frase mal construída, de um título “atarantado”, de uma “gralha” arreliadora – por vezes eufemismo a disfarçar o mero erro de sintaxe ou de gramática.

Essa é a versão do lado de quem lê, que tem o direito de exigir do lado de quem escreve, o maior rigor quanto ao conteúdo, quanto à forma.

A verdade é que num tempo onde reina a efemeridade, onde o imediato prevalece, onde o acriticismo domina, onde a velocidade é estonteante e a mutabilidade vertiginosa, a premência de ter a notícia em primeira mão, fresquíssima e interessantíssima, relega para segundo plano o tempo da reflexão. Aliás, reflectir não parece ser verbo muito moderno e saudável…

Por outro lado, e perante a crise económica que está a atravessar a “press paper”, cada vez mais as restrições são maiores, os salários menores, a imperiosidade de vender a todo o custo o alfa e ómega da função.

Se a publicidade institucional e dos grandes grupos empresariais e bancários foi durante décadas a força económica sustentatória de uma certa “tripa forra”, hoje esse maná tem-se vindo a diluir gradual mas esmagadoramemente, causando restrições financeiras muito sérias.

Claro está que fazer omeletes sem ovos ou morcelas sem sangue é um acto de ilusionismo que não resulta…

Além disso, a séria concorrência da nova realidade digital, ultrapassa a motivação da venda em banca que caiu para números impensáveis há uma mera década.

Por isso, quando culpamos os jornalistas, deveríamos ser mais tolerantes e objectivados sobre as suas condições de trabalho, o escrutínio e a pressão a que estão sujeitos.

Deixo a palavra a Patrícia Calca, numa ponderação muito acertada e com a devida vénia…

Certamente a velocidade a que esta profissão se tem que adaptar não ajuda a não errar, assim como os serviços mal pagos, as horas excessivas, enfim, a precariedade da profissão, não ajudam de todo e, a tudo isto soma-se a pressão económica, quer dos grupos detentores dos meios de comunicação social, quer dos editores: há que vender jornais, ter audiências ou, mais recentemente, ganhar cliques. E… para os resultados desejados vale tudo, passou a valer tudo num esquema estranho de sobrevivência.

De quem é a culpa? Não sei, mas defendo que nós, enquanto leitores, devemos procurar ajudar a corrigir a situação, ou pelo menos a minimizá-la. Lermos os cabeçalhos das notícias, nunca os questionarmos, aceitar factos sem serem verificados (tudo aquilo o que os meios de comunicação nos deveriam garantir automaticamente) faz parte deste nosso papel – hoje mais do que nunca.”

 

Patrícia Calca, O Jornal Económico, 02/01/17