Dos Jardins Efémeros à Incubadora de Empresas do Centro Histórico

por Carlos Cunha | 2015.03.29 - 10:49

 

 

Vem este texto a propósito de uma conversa que tive há uns tempos com um amigo sobre a importância dos Jardins Efémeros (JE). Para muitos os JE são uma verdadeira pedrada no charco, sendo considerados, numa das últimas edições da prestigiada revista Vogue, como um dos acontecimentos culturais mais relevantes do interior do país.

Viseu teve a sorte de ser o berço de um evento absolutamente fantástico e único, que este ano irá realizar a sua V edição. Desta mostra cultural têm constado espetáculos de dança, e música, exposições de pintura e de artes plásticas, arquitetura, paisagismo, yoga, o mercado tradicional e workshops diversos… em suma, uma nova vida, que passa pela reinvenção de alguns espaços do Centro Histórico (CH) da urbe, associados a espetáculos de elevada qualidade com capacidade para atrair uma enorme massa de gente, que espera redescobrir e encantar-se com a magia que os JE desencadeiam.

Este ano o Executivo Viseense considerou efetuar um concurso público, intitulado Viseu Terceiro, ao qual alocou cerca de 450 000,00€ para o apoio a espetáculos culturais, tendo o mesmo um teto máximo de 125 000,00€ por projeto apoiado. Face ao elevado número de projetos candidatos e à qualidade apresentada, parece-me que o Executivo terá de, no próximo ano, aumentar a verba disponível e criar dois tipos de candidatura: uma destinada aos projetos já consagrados e com provas dadas e outra para projetos novos ou emergentes. Assim sendo, os JE concorreriam na primeira categoria, a qual até poderia ter uma duração mais extensa, ou seja, os projetos selecionados prolongar-se-iam por um mínimo de dois anos, tendo, por isso, um plafond mais dilatado.

Atendendo a que esta é a primeira edição do Concurso Público para projetos culturais, pode o mesmo ser corrigido e melhorado, assim o Executivo Municipal manifeste esse interesse.

Quanto ao financiamento dos JE, não é preciso ser-se nenhum prémio Nobel da economia para se perceber que o retorno que os mesmos geram é bastante superior ao investimento inicial, havendo uma crescente divulgação mediática de Viseu em diversos meios de comunicação que vai já muito além das fronteiras da região.

Em termos de marketing, podemos dizer que os JE geram, em Viseu, um efeito mediático que está muito distante de uma Festa das Vindimas, que despende na sua organização um valor praticamente idêntico, mas longe do retorno económico e publicitário dos primeiros.

O impacto económico dos JE é muito significativo ao nível da restauração, bares e hotelaria com particular incidência dos bares e restaurantes do CH que, durante os dias em que há JE, devem triplicar ou quadruplicar a sua faturação. Como tal parece-me justo que aqueles que mais lucram com os JE sejam parceiros da autarquia no seu financiamento. Noto, por vezes, que a Junta de Freguesia da cidade despende atarantadamente e com pouca assertividade as verbas que tem ao seu dispor, por isso, os seus representantes só teriam a lucrar se apoiassem diretamente uma iniciativa como os JE.

Fruto daquilo a que temos assistido, os JE são uma criação que ultrapassa a sua criadora e com isto quero dizer que hão-de ultrapassar as barreiras físicas de Viseu e constituir-se, se for essa a vontade da sua mentora, como uma verdadeira produção cultural itinerante made in Viseu. Dada a grandeza que os JE vão adquirindo ano após ano, estou certo que surgirão interessados neste conceito de espetáculo, que o pretenderão apresentar noutras paragens. Os JE são assim uma espécie de filho de Viseu que um dia voará e ganhará asas. Se os quiser manter  em Viseu, a autarquia terá de os saber cativar, ajudando-os a encontrar parceiros económicos que a eles queiram associar a sua marca para que os JE se tornem no festival de verão das terras de Viriato, continuando os seus visitantes a ter acesso franqueado.

Por outro lado e dado estarmos a dissertar sobre o CH, relembro que a incubadora de empresas continua praticamente sem inquilinos, o que em linguagem corrente significa que a mesma se encontra às moscas. Dado que este edifício foi, em 2014, a sede dos JE, poderia aproveitar-se a oportunidade e o embalo dado por aqueles para aí se incubarem alguns projetos artísticos e culturais, talvez a dita incubadora ganhasse outro dinamismo e deixasse o seu estado vegetativo.

 

 

 

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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