DOMINE NOSTRA

por Adriane Guimarães | 2015.06.03 - 10:41

 

 

 

Se bem me lembro, certa feita o ex-presidente da república do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, esteve mais religioso e camarada do que nunca. Deu-se numa ocasião solene em que ele e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, falaram-se por telefone e trocaram confidências. Depois, para amenizar um pouco a sua crise espiritual, Lula foi se confessar com o ex-papa Bento XVI. De quebra, aproveitou o momento para pedir conselhos ao pontífice sobre a crise mundial que estava em alta na época. Aliás, Lula pediu para que o papa em seus sermões dominicais ensinasse o povo, além das bem-aventuranças, a driblar a crise.

Mas Lula foi meio econômico em seu petitório. A região nordeste do Brasil estava enfrentando uma seca terrível. No Rio de Janeiro as milícias se organizavam cada vez mais. Em São Paulo os descendentes de japoneses eram assassinados à revelia. A 25 de março previu uma das piores vendas de sua história. O roubo de gás havia se tornado uma vergonha. Assaltos, assassinatos, estupros… E o nosso presidente com sérios problemas de consciência, economizando até na mendicância. Nem parece que é filho de pobre!

Só que esses problemas eram café pequeno comparado ao que iria acontecer se Lula tivesse deixado Obama meter o machado na Amazônia. Em discurso durante sua campanha presidencial, Obama deixou bem claro que pretendia tornar a Amazônia área de preservação internacional. Com isso, os crimes ambientais (que já eram — e o são — abusivos) se tornariam mais frequentes ainda, porque todo mundo iria se declarar dono de um alqueire de terra.

Por isso eu gostaria de saber na verdade qual foi o tom da conversa entre Lula e Obama. Lula é um bom sujeito, mas Obama é melhor ainda de bico; e vai que o diabo do homem tivesse feito uma proposta irrecusável ao nosso ex-presidente do tipo: “Um trago por um metro de pau-brasil, Mr. Lula?”; aí seria o caos.

E o que será que o nosso ex-chefe contou ao papa? Dos pecados mais hediondos de Lula que se tem conhecimento está o da libação. Mas isso não é nada. Beber faz parte da cultura do povo brasileiro, como afirmou um juiz de Aparecida de Goiânia. Então, quanto mais copos o nosso presidente entornar, mais sábio e culto ele poderá ficar? Essa é pra rir…

Não, não é pra rir, me desculpem. Na reunião do G-20 Lula era uma espécie de urso panda em que todos amavam debruçar os olhos. Convidado VIP, apenas Lula conversou ao pé do ouvido com Bush. E a conversa, como diz o outro, tal soe serem as pérolas vadias de compinchas velhos, estava que era boa, pois na hora de brindar (pinga, uísque, champanha…), Lula foi o escolhido por Bush para surrar as taças num tim-tim tão federal que se pode ouvir lá no Iraque.

Como se pode ver, o nosso ex-presidente se tornou um verdadeiro poliglota, amigo de muitas nações e um excelente companheiro de bar. Só ainda não está bem tarimbado é na fé. Como diz o poeta, “falta-lhe não sei bem que atributo essencial”. O que, na verdade, creio não atrapalhar em nada.

Sobre a crise mundial, é bem possível que à noite, antes de dormir, antes de encostar a cabeça no travesseiro, ele tenha murmurado baixinho para si, a alma pura e limpa como a de um monge:

― Senhor, se te é possível, afasta de mim esse cálice… Ou ensina-me a governar!

E as coisas misteriosamente tenham funcionado.

 

 

Adriane Ribeiro Guimarães, dito Guimarães Filho, é poeta e escritor, membro efetivo da Academia Jataiense de Letras, em Jataí, Goiás, Brasil, onde ocupa a cadeira nº 14. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de setembro de 2012 a agosto de 2014, cursando Letras-Português. Publicou em Coimbra os livros POEMAS DA AMIGA e POEMAS DA AMIGA II, ambos influenciados pelo livro Vinte poemas de amor e uma canção desesperada do poeta chileno Pablo Neruda. Atualmente no Brasil, dedica-se aos trabalhos desenvolvidos pela Academia e ao seu fazer literário.

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