Dois títulos, dois murros no estômago

por José Carreira | 2013.12.01 - 18:31

Estamos habituados a notícias insólitas e macabras oriundas de outras paragens, de outros países, de outros continentes. O Correio da Manhã é um alfobre destas coisas…

Até já nos habituámos a assistir, impávidos e serenos, a imagens de carnificinas, quase em tempo real, enquanto degustamos um bom néctar do dão e uma apetitosa comida beirã. A marcha triunfante do Big Brother ter-nos-á tornado mais insensíveis?

O choque ocorre quando o impensável acontece bem perto de nós, quando somos confrontados com relatos de situações desumanas e humilhantes sofridas por pessoas da nossa região. O chipe dispara e constatamos quão abjetos podem ser determinados atos, de quão ignóbil pode ser o homem.

Ao ler o Jornal de Notícias, de 22/11/2013, deparei-me com duas notícias da região de Viseu, coisa rara, ambas de arrepiar. Aqui ficam os dois títulos, só por si bastante reveladores: 1) “Durante cinco meses comeu apenas maçãs.”; 2) Alunos de 10 anos fizeram sexo oral a deficiente de 11 anos.”. As notícias referiam-se a situações desumanas ocorridas no distrito de Viseu, nos concelhos de Lamego e Mangualde respetivamente.

Ambas as situações envolveram pessoas – uma criança e um adulto – portadoras de deficiência.

Apesar do muito trabalho já realizado na área da deficiência, esta população continua a ser um dos elos mais fracos de uma sociedade que estigmatiza e marginaliza, tornando-se num alvo fácil. Muito haverá a fazer, sem dúvida, sendo a educação um pilar fundamental.

O caso do homem que se alimentou apenas de maçãs e vive sozinho numa quinta abandonada deve deixar-nos sensibilizados. Felizmente, já está a ser acompanhado pelas entidades competentes. Poderemos, em princípio, estar mais tranquilos.

Quanto ao abuso sexual cometido por três crianças, sendo a vítima também uma criança e deficiente, creio que estará em causa uma questão muito mais profunda e a carecer de uma análise séria. O que estará a falhar? Talvez não possamos apontar uma resposta esclarecedora e definita. Ao pensar nas possíveis causas que possam estar na origem da prática de tais barbaridades, recordo as palavras de Fernando Savater (O Valor de Educar, D. Quixote, p. 29): “Nascemos humanos, mas isso não basta: temos também de chegar a sê-lo.”