Do passado…

por Rui Macário | 2014.08.18 - 20:18

EUDAIMONIA

Aproximando-se o reinício do ano escolar e voltando no nosso país a falar-se das questões da formação e sua perene necessidade de corresponder ao “mercado laboral”, gostaria apenas de deixar as ideias de alguém que, apresentando as palavras que se seguem em 1894, era não só um renomado activista (diremos nós) da revalorização da produção manual (integrado no movimento britânico Arts and Crafts) artesanal e especializada como um dos próprios cultores dessa produção – nomeadamente no que aos têxteis diz respeito.
Hoje, queremos mão-de-obra especializada para a linha de montagem, no período em causa algo similar era pretendido, manifestando o autor (William Morris, 1834-1896) a sua acérrima defesa do trabalho capacitado e dos mesteres:
“Gostaria de conseguir explicar-vos o que realmente penso acerca da adulteração da educação, como o melhor ensino que possuímos actualmente é diferente do que deveria ser. Direi no entanto isto: se por razões de economia não nos esforçamos por aperfeiçoar o nosso ensino o mais possível, será melhor que abdiquemos desde já da nossa reivindicação de sermos um povo prático e com senso comum. Em meu entender as coisas são assim: digamos que se calculou que o custo de um certo projecto seria de 50000 libras, mas que se chega à conclusão que, para o fazer em condições, são necessárias mais 10000 libras; que o projecto não funcionará adequadamente sem esse investimento; não seria muito mais barato despender 60000 libras a concretizar este projecto do que 50000 a não o fazer? É assim que penso que deveríamos perspectivar a questão da educação nacional, isto é, tomar a decisão de criar um ensino tão bom quanto possível, independentemente do seu custo. Talvez nem assim seja suficientemente bom; mas comecemos pelo menos, por abandonar a insensata ideia de que ensinamos as pessoas para as transformar em trabalhadores e trabalhadoras apetecíveis aos olhos dos capitalistas. Deveríamos, ao ensiná-los, ter como único objectivo tornar as suas vidas mais aprazíveis; qualquer outro objectivo seria um deplorável sucedâneo”. In MORRIS, William – “As Artes Menores e Outros Ensaios”. Lisboa: Antígona, 2003. P.141-142.
Manifestava igualmente – em finais do século XIX – o direito a uma vida condigna e preenchida. Uma questão diversa será a de uma formação (superior diga-se agora) conferir direito a um “emprego”; e mais diversa ainda a questão de algumas verbas deverem ser melhor aplicadas, no nosso sistema de ensino superior (português do século XXI). Mas o direito a fruir do conhecimento pelo que o conhecimento implica e o direito a não se ser formatado oficialmente para máquina de um sistema falho, esse deveria pertencer a cada um.
Aspirar ao melhor possível é possível, executá-lo não será mais difícil que aspirar a obtê-lo. Haja vontade e consciência das consequências… boas e más.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

Pub