Divergência ou intransigência?

por Miguel Fernandes | 2014.04.20 - 16:07

 

 

A política é feita de dissenso, e este consenso de que Cavaco Silva fala só seria possível matando as ideologias.” 

Da entrevista da deputada Isabel Moreira ao Jornal i fica a confusão que vai na cabeça de todos aqueles que, por mero dogma “ideológico”, rejeitam a ideia do consenso. Ouvimos o ano passado, que “O PS considerou (…) que as suas divergências com o PSD são insanáveis, estruturais e profundas” e o PS fez questão em repetir a ideia  já este ano. Mas estaremos a falar de divergências (ideológicas) ou intransigências (eleitoralistas)? Afinal todos concordamos que não há varinhas mágicas na economia. Admitido o argumento socialista, toda a fórmula ideológica é composta por uma mistura de preferências e rejeições, umas referentes à política, outras à moral, outras à religião, outras à vida económica and so on... Sabemos que esses variados elementos dificilmente formam uma unidade coerente, embora tendam a criar uma aparente coerência como numa assíntota, aproximando-se dela sem jamais alcançá-la. Tal esforço de congregação denomina-se, precisamente, filosofia, uma actividade que, pela própria natureza, sendo constante encontra-se sempre inacabada.

O problema na origem destas “divergências” ideológicas resulta da tendência para a polarização entre o bem (representado por um “nós”) e do mal (representado por um “eles”), uma guerra fria permanente entre opostos irreconciliáveis, típica do campo de acção da moral e, na oposição, maioritariamente liderada pelo BE e a espaços pelo PS (i.e. quando Seguro se sente forçado a dizer qualquer coisa “de esquerda”). Quando, no exercício de santificação da acção política com que o PS está comprometido por razões óbvias, se transfere aquela polaridade para a lógica político-ideológica, cai-se, necessariamente, no maniqueísmo: tudo o que me é semelhante é positivo e tudo o que me é diferente é negativo. O alegado defensor do Bem recorrerá a qualquer instrumento para eliminar o outro, o Mal. Por trás deste discurso moralizador residem, pelo menos, dois problemas: esta certeza messiânica de defesa de uma causa, de uma “ideologia” , de uma solução (no caso um projecto de governo socialista), esconde uma tendência para o totalitarismo e intolerância e, no limite, recusa-se o jogo democrático em nome de uma suposta santidade política e moral, como se António José Seguro fosse o salvador da nação bem como de setenta e quatro com o discurso do “até sobra para acabar com os sem-abrigo”. Os políticos que se pretendem moralizadores tendem a ser autoritários, aprendemos isto com o Dr. Salazar. Por outro lado, os que acreditam plenamente em si e nas suas ideias tendem a ser perigosos, aprendemos isto com o engº Sócrates. Uma boa dose de pessimismo é uma atitude necessária sempre que analisamos problemas exercendo uma função preventiva de vigilância, de cuidado. Esta confusão não é novidade numa “esquerda” que, na sequência do 25 de Abril, conseguiu vender a imagem de que é amante da liberdade, quando, na realidade, sofre do autoritarismo peculiar dos que ao mesmo tempo impõem o compasso moral do politicamente correcto e incutem, com velado zelo, a ditadura do gosto.

Miguel Fernandes, nascido em Viseu nos anos 80, durante a adolescência foi consumidor hiper-activo de televisão, música pop e lustrosos clássicos herdados do seu avô paterno. Tornou-se forasteiro, no seu próprio país, primeiro dedicou-se à Ciência Política depois à Gestão, quando finalmente percebeu que "Greed is not Good" regressou à planície beirã.

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