Dieta e Fado

por Rui Coutinho | 2013.12.12 - 12:00

A dieta mediterrânica acaba de ser considerada como parte do património imaterial da humanidade. O Fado já lá está. O título atribuído pela Unesco teve a capacidade de agrupar vontades e interesses de Portugal, Marrocos, Espanha, Itália, Grécia, Croácia e Chipre, países banhados em comum pelas águas do mediterrâneo. Será assim em todos os assuntos?
Segundo a Unesco, a dieta mediterrânica tem tido a habilidade de agregar conhecimentos, rituais, símbolos e tradições ligadas às colheitas, à pesca, à pecuária, à conservação, ao processamento, à confecção e ao modo como as refeições são desfrutadas por todos.
O consumo alimentar destas iguarias, em família ou em comunidade, é uma das matrizes sociais destes povos, onde imperam valores como a hospitalidade, a sã vizinhança e o diálogo intercultural. A sua génese e formato, que no prato conjuga e harmoniza cores, saberes e sabores, aglutina a influência dos povos que calcorrearam estes espaços.
A arte culinária mediterrânica resulta assim de um processo de adaptação dos povos às condições climáticas que durante centenas de anos se revelaram estáveis e permitiram aprimorar um conjunto de técnicas de processamento e de conservação bem conhecidas de todos. O sal, o fumeiro, o vinho e o azeite estão presentes por todo o lado. As sopas, ensopados, estufados, jardineiras e caldeiradas, são uma presença regular nas nossas mesas. O apreço pela caça, pela captura de moluscos, pela apanha de cogumelos, agora tão em voga, bem como um conjunto de produtos vegetais, tidos como selvagens (beldroegas, espargos, agriões) são uma realidade. A esta alimentação ambientalmente sustentável, podemos ainda acrescentar a pastorícia ovina e caprina, os frutos secos e as leguminosas.
Esta cultura gastronómica soube-se manter inalterável durante centenas de anos. É durante a década de 60, com a emancipação da mulher, que começam a registar-se alterações na sua diversidade. O tempo passado em casa diminui substancialmente e a transmissão de conhecimentos de geração em geração provavelmente esvaneceu-se.
A atribuição do prémio em causa poderá também ter em vista este fim, o seu perpetuar.
O que podemos assistir nos dias de hoje é que estes elementos que fazem parte do património vivo de um povo foram premiados e atingiram uma dimensão e reconhecimento mundial. Venham daí mais uns poucos, bem precisamos.
Parabéns aos dois.

Técnico Superior a exercer funções na Escola Superior Agraria de Viseu (ESAV) com ligações a projectos agrícolas e agro-alimentares é Bacharel em Engenharia Agro-Alimentar pela ESAV, Licenciado em Enologia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) Mestre em Biotecnologia e Qualidade Alimentar pela UTAD e com o Curso de Doctorado em Bromatologia e Nutrição pela Universidade de Salamanca.

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