Dialética da loucura normal

por José Ferreira | 2019.03.19 - 10:13

 

A vida é cheia de fraquezas, dificuldades e outras coisas disfarçadas que jamais conseguiremos descobrir, tão-pouco dominar. Assim, sendo nós os seus protagonistas temos que vivenciá-la com respeitabilidade e responsabilidade, aprender a lidar com as nossas variações, que são as variações dela- a vida- e ao mesmo tempo sermos aquilo que nós somos realmente.

 

O facto de estarmos permanentemente preocupados em acatar os padrões impostos por uma sociedade hipócrita, construída sob o pilar da liberdade, mas que constantemente se desrespeita, não nos tornará meros espectadores, em vez de activos actores, deste enorme palco que criamos para viver?

Será o sair do “normal” a maior beleza que um ser humano possui, já que tal saída nos possibilita a criatividade, a reinvenção, o renascimento. É esse sair do “normal” que determina a nossa originalidade, o nosso estilo e, por conseguinte, a nossa natureza, aquilo que somente nós possuímos e que não encontramos em mais ninguém. É aquilo que nos torna seres individuais e que é guardado na memória daqueles com quem interagimos?
Vou arriscar: serão os traços de “loucura” que tornam a nossa personagem tão sedutora e apaixonante? Será a exposição “maluca” da nossa loucura que deixa ao mesmo tempo quem nos rodeia e a nós próprios tão fortes e independentes? Que  nos faz atrever a sermos inadequados, sem medo de nos apelidarem de o outro, sem medo dos olhares que teimam em retirar-nos o brilho da nossa individualidade sincera?

Só assim seremos pássaros a voar livremente, fora das gaiolas que a vida “adulta” e a pressão da sociedade nos colocam à disposição para voluntariamente nela entramos, transformando-nos em indivíduos rotineiros e chatos, sem qualquer tipo de sedução, mergulhados no reino da “mesmice”?

Como alguém me disse uma vez: “perdedores são pessoas que têm tanto medo de não ganhar, que nem sequer tentam”. Dizia ele, ainda, “para tentar, antes é preciso ser honesto consigo mesmo, dando o melhor de si, mesmo que as pessoas esperem outras coisas”. Desta frase, que ainda hoje guardo, digo: ser vencedor é ter coragem para perder com dignidade sendo quem sou, o homem sem disfarces nem acomodação, com loucura e beleza. O homem que é livre para dizer merda para os padrões da sociedade.

E, porque não somos todos iguais, entendo que viver não é uma competição, muito menos a entendo como objetivo de distribuição de medalhas a quem perde ou ganha, a quem chega em primeiro ou se fica no último lugar, a quem vai embora ou permanece.

Só concebo ser possível ganhar medalhas, nesta vida tão criteriosa, quando ao olhar para trás contemplo cada pegada do “normal” caminhar, e encontro nelas um lastro de fidelidade e autenticidade, o de ter feito o que se gosta, independente daquilo que os outros queiram ou achem ser nosso dever fazer.

 

José António C.  Ferrreira, enfermeiro