Devaneios!

por Ana Albuquerque | 2016.02.10 - 22:41

 

O gosto pela leitura tinha-o adquirido naquela aldeia da beira. Uma professora primária, no sentido nobre de primeira, emprestava-lhe todas as coleções que ia adquirindo, devotamente, mês a mês, na Verbo ou no Círculo de Leitores. Era um gosto vê-la ler toda a obra de Eça numas férias grandes. Com uma faca de lâmina fina cortava, cuidadosamente, página a página, e partia à descoberta da Lisboa do Século XIX, uma cidade romântica e decadente. Adorava as personagens femininas, com colos de alabastro, a lembrarem estátuas gregas, deusas pintadas com pinceladas de emoções fortes. Demasiado atrevidas para a época! Aquilo dava-lhe volta à cabeça e omitia estas leituras na confissão, de joelhos, na igreja velha, não ao padre novo, que não fazia perguntas indiscretas, mas ao outro, mais severo e caduco de velho, pelo menos nas ideias!

Sempre gostara de História (e de histórias) e a cultura dos antigos, dos egípcios, dos romanos e dos gregos sempre a fascinara. Sonhava ser professora. Desenhava as letras nas paredes do seu quarto, com giz trazido da escola, e inventava alunos a quem punha nomes: o Alberto, o Caeiro, o Álvaro, o Bernardo, que tinha o nome do avô paterno, a Luísa, a Paula, a Alda e outros, que continuam a existir na sua memória, mesmo não tendo existido na sua vida. Apontava as sílabas com uma vara fina, que tinha trazido da quinta da avó, um dia que foram apanhar ameixas bicudas com sabor a mel, e soletrava um alfabeto que só ela entendia. E lia versos em voz alta, com gestos de mãos e arrepios do peito, como os atores!

Começou cedo a fazer as leituras, pausadas, na missa de domingo. Gostava dos salmos, da cadência ritmada das palavras. Algumas eram de uma língua antiga e tinha de treiná-las, antes, com o padre novo, sempre muito atento aos sons que elas emitiam. No princípio, tinha um ouvidinho de mestre. Mais tarde, já colocava a mão, em concha, sobre a orelha, para a ouvir melhor. (Ainda estou a vê-lo, de sotaina preta bem vincada, cabelo apartado para o lado direito, bem puxado, curto, sem cãs, primeiro, depois grisalho, mas nunca calvo!)

Um dia, andava ela na escola preparatória, aberta um ano antes, dirigida por um professor de História e de Português, de quem gostava muito e com quem dançara numa ceia de natal, ao som do acordeão, e que mais tarde foi governador civil de todo o distrito, veio uma notícia triste. O padre e professor de Educação Musical tinha tido um acidente de automóvel, ficando gravemente ferido. Estiveram sem aulas durante um período, mas graças a Deus ou às orações dos paroquianos, o homem salvou-se e continuou a ensaiar com ela versos a santo António, “taumaturgo de bens e mercês”, naquela capela que tinha sido, durante muitos anos, uma loja onde se guardava feno e utensílios agrícolas.

Ainda lá está a capela e, todos os anos, um santo mais leve, que imita o original de pedra pesada, sai pelas ruas do povo, transportado pelos jovens ou pelos homens, cada vez menos, porque foragidos para a cidade ou emigrantes, de novo, como foram seus avós! E é com pena que percorrem as ruas, agora sem banda de música atrás do andor, só meia dúzia de mulheres que entoam, ironicamente, uma ladainha a Santa Maria, “rainha de Portugal”. E o pobre António, de Lisboa, que andou a pregar aos peixes lá por Itália, sorri, do alto do seu pedestal de madeira, engalanado de cravos vermelhos e brancos ou de antúrios, conforme o preço de ocasião e a mordomia da festa.

Foram dias e dias de trabalho para tirar todo o entulho guardado naquela capela singular, toda de pedra granítica, pertença de uma família nobre que herdou também o convento vizinho, onde freiras rezavam novenas à senhora da Oliva. Essa capela, sim, luxuosa, com azulejos milenares e uma imagem da Senhora com o ramo da oliva na mão, rodeada de um sol resplandecente, de um trabalhado barroco, puro, agora a precisar de intervenção urgente, face à incúria dos governantes que cuidam mais de outras vidas do que da dos santos da porta. (Há quem diga que estes já não fazem milagres!)

À noite, junto à fonte dos namorados, trocavam-se carícias, meigas, escondidas, mas observadas do alto do mirante pelas freiras gulosas que observavam as cenas sem lhes poder tocar. Claro que isto é só ficção. Na história da vida não há lugar para devaneios.