Desporto e desenvolvimento – parte 2

por Vitor Santos | 2016.10.04 - 11:19

 

Nos clubes, sabe-se que além de uma organização assente numa base não profissional, apoiada no movimento associativo e no espírito de colaboração voluntária de dirigentes e técnicos, encontramos outra realidade onde os níveis de exigência, de profissionalismo e de interesses comerciais não se compadecem com estruturas e conceitos desgastados pelo tempo. Qualquer instituição desportiva de hoje devia estar na corrida para identificar novas fontes de receita que criem estabilidade económica a longo prazo. Fidelizar o espetador é o único objeito que deve prevalecer. Quando antigamente o futebol era o refúgio masculino das lides domésticas, hoje em dia estamos perante uma verdadeira indústria em que associamos nova terminologia como merchandising, direitos de imagem, ligas profissionais, bilhetes de temporada, audiências televisivas ou patrocínios.

Um «novo» clube produz novas atividades como respostas a solicitações internas e externas da sociedade que o rodeia: competições, colóquios, comemorações, prémios, agraciamentos, utilização de espaços desportivos e sociais com concertos e convívios.

Esta indústria, no caso do futebol português, necessita de promover a qualidade dos espetáculos e rentabilizar, aí sim, os clássicos entre os clubes «grandes». Não é com a desertificação do interior que se faz essa promoção. Precisa de uma lógica nacional antes de pensar em termos internacionais. A empresarialização do desporto vem ao encontro da evolução da sociedade dos nossos dias, das empresas, das instituições desportivas, dos agentes desportivos.

O Desporto representou 1,2% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) da economia portuguesa e 1,4% do emprego no triénio 2010-2012. Segundo dados da Conta Satélite do Desporto que no período em causa o VAB das cerca de 25 mil entidades identificadas na área do desporto foi de 1794 milhões de euros tendo as entidades relacionadas com o desporto sido responsáveis por 50,3%, seguidas das entidades produtoras de desporto com 25,7% e as entidades das Administrações Públicas com 24%. O desporto gera empregos e é um setor onde é possível a criação de trabalhos que não podem ser substituídos por máquinas – comunicação, marketing, saúde, informática, animação, etc. Indiretamente muitos mais.

Quanto à região de Viseu o que se perspetiva não é muito auspicioso. Já tem espetáculos desportivos, desporto de saúde e lazer, ginásios mas falta-lhe desporto de competição. E não se perspetiva que venha a ter. Nos países desenvolvidos o desporto está a mudar-se para o Homem e os clubes são as unidades localizadas em determinado território que promovem a prática desportiva no contexto dinâmico da sociedade envolvente. Mas falta exigência por parte do cidadão que paga impostos, competência política e os clubes serem merecedores de reconhecimento e investimento por parte destes.

Só existem fundamentalismos clubísticos e até os que se dizem eleitos no e pelo interior do país vestem é as camisolas «cosmopolitas» dos clubes de Lisboa e Porto que é onde o poder está instalado e as Tv´s estão presentes. Estes clubes não produzem nada para o cidadão do Interior do País. Viseu, Bragança, Vila Real, Guarda, Castelo Branco são capitais de distrito sem alta competição … não é por acaso. Assim vai ser impossível o interior também ser Portugal.

Será que já chegámos ao Século XXI ?!

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

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