Desolação

por Renata Aguiar | 2015.10.04 - 17:03

 

Hoje o dia acordou cinzento e ventoso em Aveiro. Nada de novo, atendendo a que falamos de Aveiro — já o meu avô costumava dizer que não podia viver nesta terra por causa do vento… Não deixa, contudo, de ser curioso que o vento e as nuvens tenham vindo assombrar o dia das eleições, depois de uma semana inesperadamente soalheira.

Fui votar ao início da tarde, agradada pelo serviço de mensagens escritas que o Portal do Eleitor colocou à disposição para facilitar a vida aos cidadãos, indicando-lhes o local onde devem votar. (Isto de se ser cidadão de um país e só se poder votar numa urna parece-me uma realidade obsoleta, mas isso são outras núpcias…)

Desde que tenho idade para exercer o meu direito de voto, só não o fiz uma vez, pelas circunstâncias adversas — não sem que tal me tivesse trazido algum remordimento… Acredito que votar, desde que em consciência, é mais do que um direito: é um dever. Sublinho as palavras em consciência: o país já está saturado das veleidades dos seus governantes, dispensa a leviandade dos eleitores incautos.

Este ano, contudo, o voto soube-me apenas a desolação. Depois de uma campanha eleitoral marcada pela perfídia, pelas acusações e pela disputa de egos — diria mesmo, vazia de política e cheia de politicagem — cheguei ao dia das eleições pouco convicta sobre onde deveria colocar a cruz no meu boletim de voto.

Qualquer que seja o caminho, não creio que o país, ou a minha vida, ou a vida de qualquer português comum como eu venha a melhorar. O conteúdo das promessas desmotiva-nos. As campanhas eleitorais são como dietas que se asseveram milagrosas, e que enganam a balança nas primeiras semanas, para depois trazerem mais uns quantos quilogramas de retorno.

Fui votar simplesmente pela noção de dever, segura de que o que hoje temos é mau e de que não há mudanças para melhor. O cenário político actual é quase transversalmente bafiento e marasmático. Desapontamento e pessimismo: foi o que eu entreguei naquela urna.

Acredito, contudo, que estas eleições serão das mais concorridas dos últimos anos, porque, tal como eu, o português comum vive descontente e desmoralizado, e quer fazer ver isso. Espero não me enganar — e a grande afluência que presenciei junto ao edifício dos Bombeiros Novos em Aveiro talvez corrobore a minha convicção. Espero que as urnas deste país se encham da eloquência do desapontamento dos eleitores, e que este se faça ouvir e nos surpreenda com os resultados.

Resta-me esperar que este não seja o primeiro dia de quatro anos cinzentos a abaterem-se sobre as nossas cabeças…