Delírio, Gratidão e Quadratura

por Miguel Alves | 2015.10.02 - 10:56

 

 

Para estas eleições parece estar acontecer o que parecia inimaginável: a enorme dificuldade de o PS conseguir convencer o eleitorado a ver nele a fonte de confiança que os portugueses procuram quase como instinto de sobrevivência: ninguém (muito menos os povos e as nações) sobrevive humana e psicologicamente sem a confiança em algo e alguém.

Porquê este, só na aparência, estranho fenómeno político e social?

Uma primeira razão, aparentemente delirante: A traição fraternal. Quando ela acontece nos laços de sangue, as vítimas não são apenas os atores diretos da contenda, mas toda a família que nela fica manchada e sob um véu nebuloso de suspeita e cautelosa prudência. Todas as outras traições são subsidiárias desta.

A segunda razão, também aparentemente delirante: a gratidão (velho é o princípio que podemos e devemos esquecer quem nos fez/faz mal, mas nunca aqueles que nos fizeram/fazem bem ou nos ajudaram/ajudam. Aqui entra o nó górdio do PS: José Sócrates, que foi seu ministro, secretário geral do partido, primeiro ministro, ganhador da sua primeira maioria absoluta e de duas eleições legislativas sucessivas. As muitas e imensas razões de gratidão que este escol de funções acarretará!

Em termos do PS, gratidão porquê? Só podemos imaginar. O estado do país e as suas causas em 2011, falavam por si. Mas o ex primeiro-ministro tinha e tem apoiantes conscientes, fanáticos e conscientes fanáticos pelo país inteiro. Para quem, muitos dizem ter deveres de gratidão e em muitos casos com razão. Aqui, a gratidão é outra coisa: é uma componente da ontogénese da espécie humana e ainda bem. Esquecê-la ou chutá-la para canto, poderá ser ligeireza. Separá-la da justiça, como é imperioso, é ciclópica tarefa. Mas a justiça está também ela, falha de componentes no seu kit da confiança.

Quem serão os eleitores que falharam e porquê na descolagem das sondagens que se fantasiou estar garantida? Para ela, razões de superfície não haverá. Por essas aconteceria o contrário. Elas estarão, provavelmente, bem fundas no inconsciente e na ontogénese humana. Ao invés, a exigência da “intocabilidade” da justiça, é fenómeno sociológico recente na história da humanidade.

Problema, é a política ser levada cabo com a espuma dos dias e das circunstâncias, mesmo que elas tenham a duração de quatro anos.

Nesta situação inusitada, ao PS era e é necessária uma enorme manobra de quadratura. A experiência da “Quadratura do Círculo” parece não ter sido suficiente!

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Pub