DAVI E GOLIAS

por José Carreira | 2015.12.28 - 16:21

 

 

A banca é forte com os fracos e poderosa aliada dos fortes, a saber, dos grandes e poderosos grupos económicos, dos “donos disto tudo”.

Capitalismo selvagem, capital sem rosto, contas offshore, paraísos fiscais, uma linguagem mais ou menos (cada vez menos) cifrada que tem adquirido visibilidade com a sucessão de escândalos financeiros em casos como o BPN, BPP, BES, BANIF…

Pedro Santos Guerreiro assina, na revista E (Expresso, 24 de dezembro de 2015) um magnífico trabalho que nos ajuda a perceber como os bancos nacionais destruíram cerca de 40 mil milhões de euros desde 2008.

O trabalho é notável porque PSG teve o engenho e a arte de descodificar a linguagem cifrada da banca. Na “Saga da Banca” explica como é que o “Diabo nos Impariu”. Numa espécie de “Imparidades para Totós” esclarece o cidadão, que não trata o “economês” por tu, como foram desenhados os esquemas que resultaram em perdas de milhões para diversas entidades bancárias.

Os “Golias” desta vida conhecem e dominam a linguagem dos milhões e sentem-se como o Tio Patinhas a mergulhar na sua piscina de notas, moedas e outros tesouros, sentem-se no paraíso, endeusados, omnipotentes e inimputáveis.

Se for um “Davi” a não pagar a prestação da casa, do carro, dos eletrodomésticos ou dos móveis arrisca-se a transformar-se num dos Irmãos Metralha, sem apelo nem agravo. Vitor Hugo dixit

Há cerca de quinze dias, por motivos profissionais, solicitei duas reuniões em diferentes entidades bancárias.

Confesso, saí pior do que entrei. Fui apreensivo, vim preocupado. Falar em “tostões”, na lógica bancária, impossibilita o diálogo com diretores tecnocratas que não têm tempo a perder, mesmo quando se trata de um cliente de décadas que sempre cumpriu as suas obrigações. Senti que não nos sintonizámos, impossibilitando a comunicação, como se um falasse árabe e o outro apenas utilizasse emojis… Um inconseguimento!

Mendigar é o verbo certo, senti que estava naqueles gabinetes a mendigar alguma coisa, senti vontade de desistir do projeto que queremos implementar e desenvolver na e para a comunidade. Desistir é o verbo errado, senti que não podia soçobrar. Não desisti porque acredito no projeto, nas mais-valias que incorpora e porque não requer um investimento avultado. Talvez seja esse mesmo o problema, não ser um projeto de milhões, logo desinteressante e “chutado para canto”.

Sou apenas um caso entre milhões que deixam bem claro que a história bíblica que narra a vitória do pequeno Davi contra o poderoso e gigante Golias é isso mesmo, ou seja, uma metáfora que pretende fazer crer que na prática o mais fraco, em certas circunstâncias, poderá vencer aquele que teoricamente se apresenta como mais forte.

Em contraponto, há indicadores positivos que nos dão alento para continuarmos a nossa missão e a trabalharmos para alcançar os objetivos definidos (darei nota em novo texto).

 

“Qual o membrudo e bárbaro Gigante,

Do rei Saul, com causa, tão temido,

Vendo o pastor inerme estar diante,

Só de pedras e esforço apercebido,

Com palavras soberbas o arrogante

Despreza o fraco moço mal vestido,

Que, rodeando a funda, o desengana

Quanto mais pode a Fé que a força humana!”

 

(Luís de Camões, Os Lusíadas (1572), Canto III est. 111)