Da violência

por Alexandra Azambuja | 2015.08.26 - 10:58

 

Era uma mulher deficiente.

Gorda, sem qualquer traço de feminilidade, cabelo cortado à máquina, embrutecida pela doença e por anos de maus tratos.

Segundo a irmã – uma emigrante em França com os tiques todos do clichet, portuguesa cinquentona  loira platinada a dar pontapés na gramática cheia de verve e avéques – a mulher deficiente não falava. Não falava mas entendia tudo, era é preguiçosa…

Estavam hoje as duas na cafetaria do hospital de Leiria.

A primeira, a bruta, atirou o pão com fiambre para o chão. A segunda, a bruta, bateu-lhe na cabeça. À frente de toda a gente. Gritou-lhe exasperada como quem ralha com uma criança no tempo em que dar reguadas na escola era normal e gritou-lhe que ou apanhava o pão com fiambre do chão ou não lhe daria comida nem bebida até à hora do almoço.

Completamente congelada, olhei para toda a gente a ver se alguém se mexia e dizia à aquela infeliz que violência doméstica é crime público.

A bruta, a loira, desancava a irmã verbalmente com ameaças. Estavam dois homens com crianças na sala, visivelmente incomodados. Havia gente que fingia que não via, havia gente que olhava fixamente a cena e havia uma técnica do hospital que se sentou ao lado e meteu conversa.

A bruta, a loira, explicava alto e bom som que a irmã deficiente era assim desde criança. Que tinha piorado quando o pai morreu.

Enquanto ela falava tentei imaginar a quantidade de selvajaria, ignorância  e violência que a bruta, a outra, a deficiente, já teria naquele corpo informe, moído de pancada.

Desisti.

 

Lembrei-me de outra cena deste Verão.

Numa praia fora dos circuitos, com meia dúzia de pessoas, num Domingo à tarde, uma mulher muito magra que chupava cigarros uns atrás dos outros, descompensou e desancava um miúdo dos seus 9 ou 10 anos, supostamente porque ele não se assoava. Gritava a plenos pulmões naquele tom de volume que denuncia um limite ultrapassado em que já nada faz sentido. E o garoto – o desgraçado – apanhava por existir e porque provavelmente a vida é madrasta muitas vezes para crescidos e para crianças.

Às tantas a mulher gritava a plenos pulmões para o garoto se ele não via que a praia inteira estava a olhar para ele? E os adultos presentes na praia não se atreviam a olhar para o quadro digno de dó, por compaixão com o garoto, que mais apanharia se o fizéssemos. E dentro de mim alguma coisa gritava que não é normal presenciar-se estas coisas e ficar quieto. Que resposta deu o mundo adulto a uma criança vítima de brutalidade e injustiça naquela tarde de praia? Que poder bater é suficiente para bater?

Fazemos o quê?

Ligamos à Protecção de Menores, à Polícia, tentamos salvar o mundo?

Talvez a bruta loira e a magrinha que chupava cigarros como se não houvesse amanhã fossem também vítimas. De um mundo insane, de violência alheia, de ignorância crónica, de injustiça.

Nos dois casos, nenhum dos adultos presentes – incluindo eu – se mexeu. Pelo atavismo de não saber como interferir na esfera doméstica, pelo medo de as crianças que estavam comigo poderem sofrer represálias físicas.

O remorso persegue-me e sei que um dia vou sonhar com a bruta que era muda e o garoto que não se assoava.

Prometi a mim mesma fugir um dia do mundo.

Até lá, da próxima que vir uma coisa destas chamo a polícia.

Tenho é receio que o graduado de serviço seja o marido da magrinha descompensada. Ou o ex da loira bruta.

 

 

fotografia daqui:  http://www.psp.pt/Pages/programasespeciais/violenciadomestica.aspx?menu=2