DA PRIMEIRA CLASSE

por Cílio Correia | 2017.03.03 - 09:33

 

 

O primeiro professor da escola primária chamava-se João. Apanhei-o à beira da reforma. As aulas começaram em Outubro e ele reformou-se no mês de Abril seguinte. Mesmo assim, azucrinava-nos a cabeça. Não prescindia de medidas “persuasivas”, sobre quem errava as contas ou não cantava a tabuada.

As coisas pioravam nos dias em que calçava sapatos pretos envernizados, com laços de atacadores proeminentes, que chiavam a cada passada como porta à míngua de óleo. Nesses dias, havia colegas que não seguravam as urinas. Enfurecia-se com os “mijados”. Balbuciava de forma impercetível e algo intimidatória qualquer coisa como “sou terrível”, à medida que se passeava entre as carteiras e alisava os cabelos para trás, carregados de brilhantina, com os dois dedos (polegar e mínimo) que lhe restavam na mão direita, depois do rebentamento duma bomba de carnaval.

Se o aluno ao molhar o aparo no tinteiro de porcelana branca deixava cair algum pingo de tinta no caderno das cópias, esborratando a folha, não passava sem um valente cachaço que se não o fazia aterrar no tampo da carteira, ficava lá perto. Os cachaços traziam-lhe à memória um episódio com um aluno que para se proteger virou o aparo da caneta para cima no exato instante em que ele se aprestava a dar-lhe uma cachaporra no pescoço e se picou.

Ao lado da secretária, encostada a um armário, junto ao quadro preto, havia uma cana seca de bambú, de cor creme, com nós de dez em dez centímetros, que quando acertavam nas orelhas as deixava quentes para o dia inteiro. Passar no exame da 4ª classe era obter um diploma crucial, daí , saber ler, escrever e contar era um objetivo, para ir trabalhar.

Perante a turma, a tremer que nem vara verde, os sábados de manhã eram o dia da vistoria sanitária: mostrar as unhas limpas e aparadas, ver se havia piolhos ou lêndeas nos cabelos e cheirar atrás do pescoço, não fosse o aluno largar alguma bufa. Quando alguém era apanhado com os pés sujos, porque isto de ir para a escola com botas e sem meias era frequente, formava-se uma fila indiana atrás do aluno até à pia da bomba de água do adro para um lava-pés, à vista de todos. Era a suprema humilhação dos mais pobres.