D. OLÍMPIA, VIZINHA DA D. MARTAZINHA…

por Cílio Correia | 2017.01.20 - 16:35

 

Ainda estou a ouvir a D. Olímpia que vivia numa casa baixinha, modesta, nas imediações do Largo do Pelourinho da minha terra natal, do lado contrário daquela onde vivia a D. Martazinha, uma senhora muito prendada, com impressionante destreza de mãos para rendas e bordados, repetir aos sete ventos que os ovos que transportava numa cesta de verga, em cima de uma almofada colocada a preceito no seu interior para os proteger de qualquer imprevisto, depois de lavadinhos à mão, e cobertos com um paninho de renda, que eram de confiança e fresquíssimos.

Só anos mais tarde me interessei pelo nome, Olímpia, de origem grega, um nome imponente que poderia significar “paraíso” ou “morada dos deuses” que se situava no Monte Olimpo, dos Deuses. A sombra da figura opulenta da D. Olímpia, vizinha da D. Martazinha, continua a perdurar e a enfrentar a agrura dos dias com um sorriso nos lábios e uma simpatia a transbordar como era seu apanágio.

O estupor de vida que a gente leva faz com que se perca a memória destas coisas, que aqui recordo e partilho.

 

AS CONVERSAS SÃO COMO AS CEREJAS…

Falemos de pessoas. Da idosa sentada na soleira da porta, em frente à pedra da paciência. As roupas eram negras, amarrotadas, como as das idosas. Segurava nas mãos um pedaço de pano, um lenço branco que dobrava e desdobrava como quem desfiava as contas dum rosário. As mãos enrugadas e os dedos nodosos evidenciavam a estrutura esquelética, sem carne e com veias salientes semelhantes a raízes sob a pele friável. A face, enrugada como papel. Uns olhos brilhantes, escuros, encovados dentro de duas cavernas, refletiam a solidão dos tempos atuais. Sobre as costas tinha, a servir de aconchego, um xaile negro com as pontas seguras por um alfinete e a cabeça coberta por um lenço negro, donde saíam cabelos acinzentados como fios dum tecido desbotado pelo sol, de pontas atadas por um nó simples, debaixo do queixo.

Longe iam os tempos em que de cesta na cabeça e braços erguidos para a segurar, salientavam os seios na blusa de chita, massajados pela trança comprida que lhe caía sobre o peito e que oscilava ao ritmo dum andar sensual. O brilho que então irradiava fazia crescer água na boca aos homens que a viam passar: deixava-os a fantasiar.