Curiosidades aquilinianas…

por Paulo Neto | 2017.03.01 - 19:55

 

 

Ontem recebi um telefonema de um cavalheiro, aquiliniano e caçador de sete costados. De seu nome Nuno Sebastião, contactou-me a propósito do próximo livro que vai editar, versando a Caça e Aquilino Ribeiro.

Claro que é quase pecado e questão de pouco senso pôr dois cultores do Mestre a falar, mesmo que seja pelo telemóvel e sem se conhecerem. Foi longa a parlenda. E também muito curiosa, até e porque há bem pouco tempo, por bizarra coincidência, tinha escrito um “Prefácio a uma montaria” que me deu azo a revisitar algumas das belas páginas sobre venatória, escritas pelo Mestre, que além de muito saber sobre a temática versada, foi um leal caçador de lebres, tordos e perdizes.

A propósito de uma caricatura dele atribuída a Sant’Ana, sobre a qual há um “pastiche” medíocre de um tal Rebelo e nos mostra um Aquilino de clavina sobre o joelho direito, com uma moca à esquerda da cintura, referi-lhe conhecer a dita imagem e já a ter utilizado, mas com um especioso cuidado, cortei-a pela cintura, pois Aquilino era um caçador leal e não um “caceteiro”, ou um varredor de vira-pau, como o seu pícaro António Malhada, da “velha Barrelas de um sino”, o afiançado Malhadinhas, almocreve de muito fôlego.

Depois de reportariarmos andarilhanças pela “Geografia Sentimental”, “O Homem da Nave”, “Aldeia, Terra, Gente e Bichos”… lá encerrámos a conversa.

Hoje, tinha email do aficionado pela cinegética, cultor de letras e discípulo de Aquilino. Lá trocámos mais uns dados e de repente, lembrei-me de uma fotografia semelhante e sequencial à publicada por Fernando Namora, na sua biografia datada de 1963, Ed. Galeria Artis, e mandei-lhe uma que havia feito da original, tirada em casa do Escritor, no Bairro de S. Miguel, em Lisboa, por gentileza de seu neto Aquilino Machado.

A foto em questão aqui reproduzida, com a caça só tem a analogia de Aquilino empunhar uma espingarda. Mas decerto tirada no Luna Park, em Paris, 1928, na companhia de Américo Buïsel.

E como sempre em Aquilino, a história é como um rio, ancho e incansável a correr por vales e fraguedos para a distante foz. Quem foi esse “camarada de espingarda de chumbo”?

Américo Limpo de Negrão Buïsel, tenente revolucionário, co-director do periódico “A Revolta”,  era filho do grande anarquista e activista republicano, José Negrão Buïsel, nascido em Portimão em 1875 e neto do catalão, Jerónimo Baudílio Buïsel, que se fixou em Portimão com o fito de aí instalar uma fábrica de cortiça. José Negrão foi o fundador-director do periódico revolucionário “A Verdade”. Seu filho, exilado em Paris com Aquilino, co-dirigiu o jornal “A Revolta” e pontificou no seio dos exilados políticos na cidade de Paris…

Aqui num cartão enviado ao presidente da 1ª República, também exilado, Bernardino Machado, sogro de Aquilino.

Se pegarmos neste fio condutor nunca mais paramos… Por isso, louvando as vicissitudes e curiosidades das vidas de ontem e de hoje e as suas entre-tessituras… ficamos por aqui e pelo “gigantismo” de Aquilino, que nos seus incumpridos 78 anos, parece ter tido alento para vida de dois séculos muito e bem preenchida.