CUBA!

por José Chaves | 2016.12.03 - 16:04

 

Em Janeiro de 1959, Fidel Castro com o seu irmão Raúl e o sempre mediático Che Guevara e todos os seus companheiros de Sierra Maestra colocaram fim a um regime que tratava os seus cidadãos como escravos, no interior e nas cidades do litoral tudo funcionava como um bordel, onde os senhores endinheirados e moralistas nos países ocidentais, sobretudo Estados Unidos, iam dando largas aos seus desvarios sexuais e outros.

Uma revolução é mesmo isso. Não se conhecem revoluções em que não tenha havido excessos. Não se conhecem revoluções onde não tenha havido atentados aos direitos humanos e execuções que envergonham a humanidade, mas isso foi em Cuba, como foi na Independência dos Estados Unidos, como foi em Espanha ou noutra qualquer revolução.

Mas esta tinha uma particularidade, queria impor um ideal de sociedade. Mas não era um ideal qualquer, era um ideal que baseava as relações sociais na igualdade, coisa que colocava e coloca em causa o mundo ocidental do capitalismo e da competição. Vingar uma revolução destas era vingar uma possibilidade que colocaria em causa todo o sistema capitalista das sociedades ocidentais.

Como poderia a revolução cubana combater um inimigo tão poderoso?

Estamos a falar de um inimigo que, além do mais poderoso do mundo, nunca olhou a meios para atingir os seus fins, desde o mais vergonhoso e assassino embargo que há memória na história da humanidade, de tentativas de desembarques para invadir a ilha, a centenas de tentativas de assassinato de Fidel Castro, até à manipulação de toda a informação que vinha deste pequeno povo, valeu tudo, até ter uma lei especial para os imigrantes vindos de Cuba só para os aliciar, como foi aliciado Cristo nas tentações do deserto. Quem viesse de Cuba era chamado refugiado, quem viesse de outro lugar era imigrante, só por aqui se vê como terá sido difícil a vida de quem acreditou num ideal – e nem sequer está em aqui em causa a validade desse ideal.

Uma comunicação social que faz um alarido enorme com a notícia da revista “Forbes” sobre a fortuna de Fidel Castro e já completamente desmentida e provado que foi tudo manipulado, mas cala a notícia da acção de Cuba e dos seus médicos na ajuda às vítimas do terremoto ocorrido no Paquistão e em que os médicos cubanos ajudaram mais de 1.700.000 pessoas, cala a ajuda dos médicos cubanos em África no combate ao ébola, na ajuda que prestam em toda a América Latina e muitas outras situações de solidariedade… É esta a isenção da comunicação social do ocidente!

Como é que um pequeno país, com todas estas contingências, poderia fazer frente a uma potência como os Estados Unidos, sabendo-se que eles estavam em permanente sabotagem ao que se pretendia com a implementação de um regime que poderia colocar em causa a “democracia” ocidental?

Só mesmo com todas as cautelas, porque todos podiam ser comprados pelos donos do dinheiro, mas não donos das consciências. Implementar um regime que ajudasse a descobrir os traidores do regime, os vendidos ao capitalismo, os que não gostavam de ser tratados como iguais, não foi nada fácil. Daqui resultou um regime repressivo, em que se cometeram alguns excessos, que não podem ser desculpados nem branqueados, mas que, de alguma forma, se justificavam, em nome de um ideal que pretendiam para o seu pequeno país em contraponto às tentativas para que esse ideal fracassasse.

Feitos os devidos ajustamentos e com o tal embargo assassino que os não deixava ter melhor qualidade de vida, passaram a ter mais confiança em todos, abriram as portas ao turismo e tornaram a sua ilha, um local onde se vive sem luxos mas com respeito pela dignidade da pessoa humana.

Cuba, mesmo ainda estando longe desse ideal, é o exemplo que é possível, mesmo que ainda haja um caminho longo a percorrer, a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados, em que todos podem ser tratados como iguais e com dignidade e que o fundamental pode ser assegurado, mesmo que não se trate de ferraris ou perfumes franceses.

O mundo ocidental e sobretudo os Estados Unidos da América, sempre entenderam que só havia uma forma de democracia – a deles… E por isso, não querendo saber das culturas, do viver e dos anseios dos outros, cometeram as atrocidades que todos sabemos em África, na América Latina e agora nos países Árabes, onde se morre e se sofre por conta do modelo social das democracias dos países ocidentais.

E é por isso que a revolução cubana assusta tanto o ocidente. É por isso que a revolução cubana pode colocar em causa o modelo do capitalismo. É por isso que há que colocar um fim a algo que pode alastrar-se a outros países. É por isso que o todo-poderoso Estados Unidos usou de tudo para desacreditar o regime: usou familiares dos Castros, usou da mentira e da adulteração de notícias, usou o embargo, usou cubanos ambiciosos cuja igualdade os assusta.

Mas mesmo com tudo isto:

Esta noite milhões de crianças vão dormir na rua sem terem nada para comer, mas nenhuma será cubana!
Esta noite milhares de pessoas vão ficar à porta de um hospital para serem tratadas nos Estrados Unidos, por não terem seguro de saúde, mas jamais isso aconteceu em Cuba!
Esta noite milhões de idosos são abandonados à sua sorte no mundo inteiro, mas nenhum é cubano!
Esta noite, alguns portugueses vão ficar a ver melhor, porque tiveram de ir a Cuba tratar-se!
Sim, houve excessos durante a revolução, todos condenáveis, mas qual a revolução em que não há excessos? Em Cuba a revolução deveria ser tão de veludo que deviam tratar com beijos quem tentou assassinar 638 vezes Fidel Castro e eram só os serviços secretos do país mais poderoso do mundo…
Em Cuba não há democracia, democracia é nos estados Unidos em que é eleito, numa votação uninominal o que tem menos votos. Cuba é o país onde há o maior número de eleitos por habitante (5,9 por mil habitantes), mas não há democracia. Todos os dias morrem pessoas nos Estado Unidos por intervenção do Estado através da pena de morte, mas em Cuba é que se não respeitam os direitos humanos. Todos os dias, no mundo inteiro milhões de pessoas morrem nas ruas abandonados, mas em Cuba é que não se respeitam os direitos humanos. Em Cuba não há democracia porque se perpetuou no poder uma pessoa, democracia é em alguns países ocidentais em que se perpetuam no poder pessoas apenas pelo nascimento!
Em Cuba de fato não se respeitam os direitos humanos. Não, sobretudo numa parte da ilha a que se dá o nome de Guantánamo.

Em Cuba não se respeitam os direitos de cidadania, quando há quase pleno emprego, respeito por isso é nos países ocidentais, que basta uma mera comunicação de uma agência de rating para serem lançados no desemprego milhões de pessoas.

Em Cuba não se respeitam os direitos humanos, tanto que durante o regime do apartheid na África do Sul, enquanto por toda a Europa e Estados Unidos se assobiava para o lado, eram os cubanos a ajudar a acabar com esse regime.
Em Cuba não se passeia de Ferrari, nem se usam perfumes franceses, mas todos sabem que são muito mais iguais que em qualquer outra parte do mundo…
Em Cuba é tudo tão mau que até são o único país da América latina com 0% de desnutrição infantil.

Em Cuba é tudo tão mau, que é possível alugar um carro, viajar por todo o país, ficar hospedado em casas particulares, falar de tudo com as suas gentes e tirar as suas conclusões.

Em Cuba há a menor taxa de mortalidade infantil da América, incluindo os Estado Unidos e o Canadá.
Em Cuba todos sabem ler e escrever, como em mais lado nenhum da América Latina isso acontece, TODOS têm acesso a aulas de música, desporto, artes, quando aqui, no nosso Portugal, é exclusivo de ricos…
E mais, e mais, e mais e muito mais…
Mesmo depois do bloqueio económico mais atroz da história da humanidade é este o retrato de Cuba!

Podia ter ficado calado, mas a minha consciência não o permite…

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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