Crise (do) Interior

por Luís Ferreira | 2016.09.27 - 18:09

 

 

O debate acerca do interior de Portugal já não é coisa de agora. Até porque se debater a situação a resolvesse, há muito já estaria o problema tratado. Mas como falar não chega e os nossos governantes ainda não se capacitaram a perceber isso, temos tema para mais uns anos, e anos para mais uns temas.

A situação decadente e solitária do nosso interior magoa a quem vê. Não se combate a emigração nem a migração para os centros urbanos, não se combate a decadência económica nem demográfica destas regiões. Efetivamente, não se combate nada. Porque enquanto umas tríades gloriosas debatem milhares de milhões alocados sabe-se lá ao quê (…talvez ao voto), outros tantos mais debatem migalhas para tentar esconder o esquecimento governativo daquilo a que chamamos Interior. Efetivamente, o que hoje se vê são os municípios a tentar mitigar a situação das suas gentes, com as tais migalhas numa mão, e a outra bem no peito. Mas, infelizmente, isto já não vai ao sítio só com patriotismos. E enquanto os nossos governantes não se mentalizarem que o Interior existe mesmo, cada vez mais desertificado, nem lá vai com patriotismos, nem com nada. Certamente nada mudará enquanto não tivermos um reles ministro que seja obrigado a percorrer regularmente o martírio que é a estrada do Sátão ou a IP3. E que bom seria se ele tivesse de percorrer as duas sucessivamente! Pois quem as faz, sabe bem a Via Sacra que é. E duvido que haja algum ministro capaz de carregar tal cruz.

A estrada do Sátão, que liga inúmeros municípios a Viseu, é vergonhosa. Demora-se uma hora a ir de Sernancelhe a Viseu, e não sendo ministro ainda se habilita a umas multas. Há troços em que já todos se metem na berma, porque na estrada parecem existir crateras. (Lá para Sernancelhe há uns baldios parecidos!) Mas para quem, como eu, ainda segue viagem pela IP3, ainda há tempo para mais lamentações. Porque se no Sátão me metia na berma, aqui não tenho tal sorte: não há berma. Derrocadas constantes aliadas ao estreitamento das vias exige perspicácia nas ultrapassagens. Porque, por vezes, ou deixa o retrovisor no separador central, ou o deixa no outro carro. É mais ou menos como o Governo faz com o Interior. Ou o deixa na gaveta, ou não sabe onde o deixou.

“Não brinquem com os números, respeitem as pessoas.”

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

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