CRATO ESE uma comédia!

por António Soares | 2013.12.19 - 16:52

É uma rábula contada por Jorge Bucay. Um homem telefona ao médico de família para se queixar do estado progressivo da surdez da mulher. “Onde estás?”, perguntou o médico, “No quarto. Ela está na cozinha”. “Então vamos fazer o seguinte”, prosseguiu o médico, “chama-a e vai avançando pela casa até que ela te responda”. O homem assim fez, foi pela casa a gritar “Mariaaaaaa, Mariaaaaa, Mariaaaaa”, até à cozinha, onde a mulher estava, de costas para ele, a lavar a louça. Colocou-lhe a mão no ombro e gritou “Mariaaaaa”. A mulher, furiosa, deu meia volta e gritou “O que foi, o que foi, o que foiiiiii?” Já me chamaste umas dez vezes e dez vezes eu te perguntei o que foi. Cada vez estás mais surdo, não sei porque não vais ao médico de uma vez por todas”.

Se “não há pior cego que aquele que não quer ver”, não há pior governação que aquela que não ouve aqueles a quem deve servir.
Mais uma vez um Ministro mete-se numa alhada e, perante a indignação geral, tapa os ouvidos com os indicadores e faz aquele número irritante do “Lálálá não estou a ouvir nada”. O pior é que não está mesmo!

Depois do enorme falhanço da Prova de Avaliação de Conhecimento de Competências (PACC), Nuno Crato coloca a cereja no topo do bolo, em entrevista à RTP, afirmando que as suas dúvidas são “sobre a formação obtida nas Escolas Superiores de Educação”.

Se à primeira vista esta afirmação de Crato parece censurável, infundada e um manifesto vácuo de conhecimento e sentido de responsabilidade, um segundo olhar pode descortinar motivos e causas que fundamentam a posição de Crato.

Como pode um Ministro da Educação aceitar que as ESE consumam três anos de recursos para formar um licenciado, muitas vezes destinado ao desemprego, quando há Universidades que o fazem em apenas um ano, com a vantagem de formarem ministros?

Como pode um Ministro da Educação aceitar que uma ESE sujeite todos os alunos às mesmas matérias, ignorando as mega equivalências de alguns pequenos cargos?

Como pode um Ministro da Educação aceitar que as ESE se limitem a laborar em semanas de cinco dias úteis, enquanto algumas Universidades se esforçam para passar diplomas ao Domingo?

É certamente por ter conhecimento em primeira mão destas discrepâncias, que o Ministro terá a ambição de alargar esta eficiência e eficácia de algumas Universidades a todo o Ensino Superior em Portugal.

Outro motivo que pode influenciar a má opinião de Crato sobre as ESE é o facto de não ter amigos que as tenham frequentado.

Olhando para a formação académica dos colegas de Governo do Ministro, constatamos que: Passos Coelho, o Primeiro, é licenciado em Economia pela Universidade Lusíada de Lisboa. Rui Machete em Direito na Universidade de Lisboa, Aguiar Branco também em Direito na Universidade de Coimbra e Paulo Macedo, o Ministro que nos tem tratado da Saúde, em Gestão e Organização de Empresas na Universidade Técnica de Lisboa.

Nenhum Ministro formado numa ESE, portanto!

O facto das ESE’s não estarem a formar ministros parece, per se, um sinal claro de seriedade no ensino.

Boas Festas a Todos!
Que este Natal seja nostálgico para muitos; será certamente no estaleiro para a Martifer.