“COSTA E A DIALÉTICA DO DESASTRE”

por José Carreira | 2015.10.31 - 12:04

 

 

Tive o primeiro contacto com Byung-Chul Han, ao ler o interessante ensaio A Era do Cansaço(Relógio D’Agua). Comecei, hoje, a ler outra obra do autor: A Agonia de Eros”.  

“O rapaz vê-se arrebatado pelo infinito do céu vazio. É arrancado de si próprio e desinteriorizado para um fora atópico – é des-limitado e es-vaziado. Este acontecimento desastroso, esta irrupção do fora, do totalmente outro, realiza-se como um des-apropriar (expropriar), como supressão e esvaziamento do próprio. – a saber, como morte: ‘Vazio do céu, morte diferida: desastre’.”

Ao ler o parágrafo que transcrevi, a primeira imagem que me veio à cabeça foi, os socialistas que me perdoem, a de António Costa no dia em que perdeu as eleições…

Sim, sejamos objetivos, Costa perdeu claramente as eleições, foi “o derrotado” da noite eleitoral. Ao olhar o céu, na noite das eleições, não haveria uma só estrela para Costa. Pensei que, depois do principal argumento que usou contra Seguro – (ganhou por pouco) – se demitisse no exato momento em que constatou que ficou a várias pontos da coligação.

A grande vencedora foi Catarina Martins que, qual fénix renascida, ressuscitou das cinzas e devolveu ao Bloco uma força em que poucos acreditavam e a quem outros tantos vaticinavam a morte política. Conquistou mais poder e está a exercê-lo a seu belo prazer, capturando o PS e “encostando às cordas” o PCP que se sentiu tentado a abandonar o seu confortável “enclave”.

“Mas”, há sempre um “mas”, e o que sucede ao “mas” é que conta verdadeiramente. Mas, o instinto de sobrevivência do Dr. António Costa permitiu-lhe desencadear a “dialética do desastre”. Como nos diz Byung, “O infortúnio desastroso muda-se, de modo inesperado, em salvação”.

O infortúnio desastroso de António José Seguro deu a António Costa a força necessária para juntar as tropas e, democraticamente, apeá-lo da liderança do partido socialista.

Agora, o seu “infortúnio desastroso”, perdeu umas eleições que, durante muito tempo, todos consideravam ganhas, parece poder, “de modo inesperado”, transformar-se “em salvação”, na sua salvação…

Temo que a salvação do líder não seja a do partido que corre o risco de se tornar uma cópia do PASOK. E, afirmo-o sem constrangimentos, o país precisa de um PS forte, responsável, europeísta e que assuma as suas responsabilidades.

Temo que esta deriva aventureira à esquerda, com o piscar de olho ao BE e ao PCP, mergulhe o país numa crise de confiança que desencadeará uma nova ofensiva dos mercados e das agências de rating. Inevitavelmente, os juros da dívida dispararão e consequentemente a desconfiança dos investidores instalar-se-á.

Se, num futuro mais ou menos próximo, o Governo do país depender da extrema-esquerda, Portugal poderá transformar-se numa Grécia parte II…

Termino com uma ideia de Marçal Grilo, veiculada na entrevista que concedeu ao SOL (30 de outubro de 2015): “É perturbador António Costa poder ser primeiro-ministro tendo sido derrotado nas eleições. Perturbador para o sistema e para mim também.”