Coreografias: A bailarina e o robot

por José Carreira | 2013.12.05 - 11:18

Vivemos num mundo cada vez mais tecnológico. Os gadgets fazem parte do nosso quotidiano. Considero-me um “emigrante digital”, ainda gosto de ler em papel, de sentir a sua textura e o cheiro a “tinta fresca”. Mas, como boa parte dos portugueses, não dispenso um smartphone, um tablet e um computador… Sinto dificuldade em “libertar-me deles” e sou assolado pelo stress, se por algum motivo não consigo aceder à internet. Talvez ainda não seja um adito à tecnologia, mas já terá faltado mais.

Contudo, há uma nova geração que já nasceu rodeada de tecnologia, cujos objetos, seja um smartphone ou um tablet, são quase o prolongamento do seu corpo. Estamos na presença, como definiu Marc Prensky, de “nativos digitais”. Também designados Geração N (Net), Geração P (Polegar), Geração D (Digital). Estes jovens são multitarefa, capazes de ouvir música, ver um filme, jogar computador, enviar SMS, tudo ao mesmo tempo. Na era da sociedade da informação e comunicação, a inovação tecnológica ganhou forma e força avassaladoras.

A bailarina e coreógrafa espanhola, Blanca Li, criou um espetáculo bem ilustrativo da presença constante, quase obsessiva, das máquinas em nosso redor. A nossa relação com as máquinas mudou, estas fazem, cada vez mais, parte das nossas vidas. Com o seu novo espetáculo “ROBOT” a coreógrafa pretende retratar o quotidiano da época em que vivemos. Considerando a tecnologia interessante para a criação artística, alerta-nos para os riscos inerentes de nos deixarmos escravizar e de até onde poderão ir as máquinas e os humanos. Quais serão os limites?

Quero destacar dois vocábulos – “coreografia” e “limites” – que me fazem lembrar uma tarde triste que vivi, nos últimos dias.

Fui convidado para assistir a uma sessão de apresentação de fundos comunitários e descobri que há coreografias que vão para além da representação da realidade. Os putativos “bailarinos” e / ou “atores” representam a sua própria realidade, just in time, gostem ou não dos coreógrafos ou do guião.

Encontrei um amigo que desabafou: “Sinto-me humilhado, sou usado para coreografar esta pouca vergonha.” Um colega lamenta: “Já fui convocado para três coisas desta natureza, ou me adoram ou me odeiam, ainda não percebi.” Surge uma senhora, semblante carregado, com as lágrimas nos olhos e a praguejar contra a situação que vive, a miséria do país e a triste figura a que tem que se sujeitar porque está desempregada. Pessoas, das mais diversas idades, vão-se cruzando e questionado: “O que é que estamos aqui a fazer?”; “Será que nos dão algum certificado no final?”; “Não há limites?”; Não há respeito?”.

Um atrás do outro, os participantes no evento vão saindo de cabeça baixa, rosto fechado, passo apressado, desejando tornar-se invisíveis. O estigma do desemprego é latente. Uma chaga social que dízima a dignidade das pessoas e as atira para a vulnerabilidade econômica, social e familiar. Não contabilizáveis na “geração nem-nem” (nem emprego – nem formação), estes cidadãos são obrigados, porque estão desempregados, a assistir a seminários cujos objetivos em nada se enquadram nos seus percursos profissionais, sentindo-se usados para ajudar a coreografar alguns momentos de “gente importante”…

Mergulhados em tecnologia, inovação, empreendedorismo, criatividade, incubadoras de empresas / ideias, nada faria prever que a nossa geração pudesse viver pior do que a anterior e, arrisco-me a dizer, melhor do que a próxima. No espetáculo de Li o palco é partilhado por bailarinas e máquinas. Nesta relação entre o homem e a máquina poder-se-á jogar muito do nosso futuro que será inevitavelmente tecnológico, mas que se deseja mais humanizado. Se a tecnologia contribui para a melhoria da nossa qualidade de vida também contribui para a diminuição da necessidade de mão-de-obra. Da putativa harmonia entre a BAILARINA e o ROBOT, isto é, entre o HOMEM e a TECNOLOGIA deverá resultar um novo paradigma que permita gerar os imperiosos equilíbrios societais.