(contra)Poder e desconhecimento

por Silvia Vermelho | 2013.12.23 - 04:32

No dia 09 de Dezembro, por ocasião do Dia Anti Corrupção, a Transparência e Integridade – Associação Cívica divulgou a abertura de um centro de apoio jurídico às vítimas e denunciantes da corrupção. A notícia foi divulgada em vários sites noticiosos e apesar deste meu sentimento de incredulidade não ser um exclusivo deste caso (infelizmente), a quantidade de comentários completamente disparatados que li acerca deste assunto foi absurda.

Centenas e centenas de pessoas, apesar do título ser claro e do corpo da notícia também, acharam que o centro era feito pelo Governo (erro nº 1) e/ou que era um centro de denúncia (erro nº 2) e/ou que era criado pela União Europeia (erro nº 3) . Na sequência da presença de um ou mais destes erros, os comentários de “voltou a PIDE!”, “é incentivar as pessoas à bufaria!”, “corruptos a pedir para os denunciarem para depois os calarem”, “é só tachos”, etc., propagaram-se à velocidade da luz. Ainda tentámos, eu e mais alguns resistentes à insanidade colectiva, fazer com que as pessoas tivessem oportunidade de discordar da notícia propriamente dita, e que não perdessem tempo e energia a discordar e a vociferar contra coisas que não existem. É claro que uma panela de pressão deste tipo é impossível conter, e tive que desistir passadas umas horas.

De facto, como desabafei logo de seguida no facebook, é fácil desgovernar um país assim. Há imensa gente – não vou dizer a maioria, porque obviamente não tenho estatísticas para tal! – mas imensa gente (mesmo!) que não sabe ler nem interpretar uma notícia redigida em linguagem simples e despretensiosa. 90% dos milhares de comentários da notícia insurgiam-se contra um centro de denúncia criado pelo Governo. Isto é assustador. Há muita gente neste país para quem tudo o que mexe é Governo e é mau. Há muita gente neste país que não sabe distinguir uma Associação Cívica do Governo ou do Parlamento ou da Justiça. Há um “eles” que é composto por toda a gente que se propõe a fazer mais do que o seu papel de contribuinte. Esta falta de filtro ainda é mais preocupante porque as pessoas até boicotam as acções da sociedade civil organizada que visam contribuir para a correcção ou alívio das acções do Poder institucionalizado.

Um povo que confunde contra-poder com Poder, e que boicota o primeiro, só reforça o absolutismo do segundo, que toma cada vez mais formas com um Estatismo e Municipalismo que de Socialista e Liberal nada têm.

É claro que é exasperante contra-argumentar. Parece que estamos a falar com uma porta. Nesta categoria não incluo as pessoas mais distraídas, porque essas reconhecem, depois da chamada de atenção, que se precipitaram na leitura. O problema são as outras, essa maioria do que não será a maioria mas que é muita gente, demasiada gente, a não fazer a mínima ideia do seu papel e do papel dos outros no seu dia-a-dia. Somos produtos de um sistema que se mantém por estes produtos apáticos, alienados e francamente desprovidos de qualquer literacia política. Não consigo assumir, não aceito, que não se considere a dimensão política na chamada “literacia funcional”. Uma pessoa que não sabe a sua posição de Poder e qual o Poder dos outros não é autónoma na gestão da sua vida. Uma pessoa que não sabe para o que vota e quais são as competências de uns órgãos ou de outros, não é livre nas tomadas de decisão que faz na sua vida. Basta, chega. Não nos podemos calar. Temos de falar. Temos o dever de resgatar os nossos pares da alucinação colectiva a que nos vetaram. Por isso, a próxima vez que uma situação como a que relatei se tornar a passar, farei a mesma coisa. Não calarei, tentarei esclarecer o erro 1, o 2 o 3, o 1000º. Temos todas/os o dever de fazer o mesmo.

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

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