Construam pontes!

por Ana Beja | 2015.09.20 - 10:29

Tenho assistido com algum pavor às notícias dos últimos tempos. Chego a pensar que tenho de dar razão aos mais velhos quando os ouço dizer que isto é o fim do mundo!

Ver o telejornal à hora do jantar é um ato verdadeiramente corajoso e com o qual me tenho confrontado nestes tempos. Já pensei em mudar o canal para o Discovery Channel e assistir à invasão dos gafanhotos no Deserto do Saara. Pelo menos não me irrito tanto e até me acalmo (com o barulho dos bichinhos).

Mas o que se passa connosco?? Estaremos a ficar todos doidos?? Que raio de liberdade é esta em que dizemos e fazemos tudo o que nos dá na real gana, arrastando e derrubando o que nos aparece pela frente, sem olhar ao mal que estamos a fazer? Para onde foi o respeito, a solidariedade e a amizade? Onde andam os valores? Será que ( tal como tantos portugueses) emigraram para outro país ou continente?

Numa sociedade onde se prega tanto sermão e roga tantos rosários, onde nos achamos no direito de opinar sobre a vida dos outros e sobre tudo e mais um par de botas (mesmo não percebendo patavina do assunto) onde a informação é a primeira a chegar, como se pode assistir a tanta doidice e falta de juízo? À hora do almoço não é diferente da hora do jantar…parece o “Crime”, só que na versão ao vivo e a cores: “pai atira sobre…”,  “vizinho mata…”, “mãe afogou…”, “colega de escola mata…” e nem escrevo o resto, pois o resto toda a gente já sabe. A última que ouvi (e esta vou escrevê-la toda) foi “homem mata por causa de uma bola de berlim”. Será possível, pensei eu? Estarei a ouvir bem? Não só ouvi, como li, pois estava escrito em letras garrafais no ecrã da televisão onde costumo almoçar. Estava para comer dentro do estabelecimento, pois estava um vento maluco, no entanto, não há estômago que aguente estas notícias e preferi ir para a esplanada levar com o vendaval!

Custa-me ver a falta de auxílio, de proteção, a falta de solidariedade. Custa-me ver pessoas que não cumprimentam, que não apertam as mãos, que não dão um sorriso ou um abraço, que não dão a vez a alguém da fila, que não seguram a porta ou que não se levantam da cadeira para dar lugar a quem mais precisa. Será que a sociedade entrou em falência emocional?? Estaremos todos na bancarrota?? Porque será que andamos tão irritados? Parece que andamos todos zangados uns com os outros, que só temos direitos e nenhuns deveres e que toda a gente nos deve e ninguém nos paga! Não sei como será daqui para a frente, mas se é assim o agora, imagino o amanhã!

Tenho pena que a sociedade esteja desta maneira. Que não exista tolerância entre nós, que não se respeite o próximo, que se devasse a vida alheia, que se mate, espanque, abuse e acuse com uma leveza tão grande como quem mata por uma bola de berlim! Será que se nos puséssemos no lugar do outro e parássemos para pensar no sofrimento que estamos a causar, o mundo não seria bem melhor? Se deixássemos de olhar só para o nosso umbigo e passássemos a olhar para o do outro, não seríamos mais felizes? De certeza que sim, até porque penso que a verdadeira essência da felicidade consiste em fazer os outros felizes!

Termino, parafraseando Pessoa, e apesar da alteração da ideia, não tenciono o desprestígio da mesma: Pedras no caminho? Apanhem-nas todas. E em vez de um castelo construam pontes. E atravessem-nas. Para que possam sentir, nem que seja por um momento, o que é estar do outro lado!